|
A definição
de W. W. Weston utilizada por McWhinney diz-nos que doentes difíceis
são, aqueles com quem o médico tem dificuldade em estabelecer
uma relação eficaz. São doentes que, por algumas
das suas características pessoais, conseguem fazer com que os diversos
profissionais da equipa desencadeiem reacções hostis e algum
desespero, sempre que os vêm ou se apercebem que os seus nomes constam
da agenda de marcações. Esta definição pode
ser apoiada por um estudo que introduz o conceito Piaget no conhecimento
operacional da teoria cognitiva da aprendizagem. Este estudo conclui que,
de acordo com o método centrado no paciente o médico deve
explorar todo o contexto social e emocional do doente, de modo a compreender
o verdadeiro significado da doença. A sugestão dos autores
é que se acrescente a dimensão cognitiva, e, que o conceito
do conhecimento operacional pode e deve ser usado neste tipo de investigação;
ou seja «O que dizem os médicos» versus «O que
ouvem os pacientes». Comunicar implica também o auto conhecimento.
Quanto melhor nos conhecermos a nós próprios, mais facilmente
compreendemos o porquê e o para quê de determinados comportamentos
e atitudes dos nossos pacientes. O encontro de duas personalidades médico/paciente
é como se fosse o encontro de duas histórias, mas o médico
tem por obrigação saber os limites desse confronto. Nesta
relação biunívoca médico e paciente têm
as suas expectativas:
1. o médico procura compreender o doente perante a sua situação
específica, o que ele espera da sua actuação médica,
e em que medida é que o doente será capaz de colaborar na
resolução do seu problema
2. de igual modo o médico espera receber essa mesma colaboração,
espera ser compreendido e aceite no seu saber, no seu fazer e no seu estar
3. o doente espera ser pacientemente ouvido e compreendido, e sobretudo
espera que o médico ou lhe resolva o problema ou pelo menos que
o ajude a resolvê-lo
Os doentes podem ser classificados de «difíceis» pelas
mais variadas razões; tentaremos descodificar algumas delas:
1
Distúrbios
de personalidade
Alguns estudos apontam que os distúrbios de personalidade são
mais prevalentes entre os doentes difíceis. Estes podem ser classificados,
e são-no com alguma frequência nos estudos que versam esta
temática:
- Comportamento
agressivo ou ameaçador
- Consumo excessivo dos serviços de saúde
- Comportamento pouco colaborante
- Comportamento impertinente
- Comportamento punitivo
- Comportamento manipulador
Perceber
o porquê é importante mas não suficiente. É
no entanto essencial, saber se existem razões médicas de
carácter orgânico que provoquem desvios de personalidade,
ou patologia psiquiátrica que possa explicar determinados comportamentos.
O facto do médico não reconhecer esses distúrbios
precocemente, pode dificultar o êxito da relação e
inclusivamente atrasar decisões terapêuticas. Assim, torna-se
importante nomeadamente nos Cuidados Primários, aumentar o grau
de conhecimento dos profissionais no diagnóstico desses distúrbios.
2
Diferenças culturais
Existem cada vez mais pacientes com outras culturas e crenças o
que pode dificultar de algum modo a relação médico-doente,
não só pela própria linguagem que, pode ou não
ser falada mas não é normalmente tão fluente e perceptível,
mas também por questões de crenças culturais que
têm de ser entendidas e respeitadas sem perder o sentido ético
e o sentido da própria medicina que é o de salvar vidas.
O culto da morte é diferente em muitas culturas, e podemos dar
como exemplo os ciganos. A religião tem de ser enquadrada na relação
médico-doente, e não pode nem deve ser escamoteada.
3
Doenças incapacitantes
Os doentes terminais ou doentes com a hipótese de diagnóstico
- demência, podem ser outros exemplos de dificuldade na relação
médico-doente. Estudos ingleses indicam que a maioria dos médicos
de família revelam aos seus doentes terminais o diagnóstico,
assegurando que as vantagens são superiores às desvantagens
nomeadamente no que respeita ao planear o futuro, mas nos mesmos estudos,
confirma-se que a actuação já não é
a mesma quando se trata da probabilidade de existência de uma demência.
Outros estudos efectuados nos Estados Unidos, dizem-nos que a maioria
dos pacientes de todas as idades, gostaria que lhes fosse revelado o diagnóstico,
mesmo que este seja demência. Não há soluções
fáceis para todas as dificuldades que se nos colocam ao atender
estes pacientes, mas não é evitando-os ou tentando empurrá-los
para outros colegas que conseguimos resolver o problema. As técnicas
de abordagem têm de ser diferentes caso a caso, mas a maioria dos
autores acredita que o caminho aberto por Michael Balint é o mais
indicado; Balint no seu livro «The Doctor, his patient and his illness»
ilustra muito bem com histórias práticas que não
havendo soluções universais é possível negociar
as situações e encontrar alternativas viáveis para
cada uma das situações.
4
Situações
desencadeantes
Tentemos exemplificar algumas situações potencialmente geradoras
de conflituosidade:
se as pessoas demorarem muito mais tempo à espera da consulta do
que contavam, podem tornar-se impertinentes ou mesmo agressivas, isto
se não lhes for dada uma explicação.
A forma de atendimento também pode gerar agressividade, pois as
pessoas devem ser atendidas com educação. Mães com
bebés muito impertinentes a aguardar consulta, por doença
aguda e esperarem algumas horas na sala de espera sem o mínimo
de triagem. O primeiro passo é perguntar ao doente porque age daquela
forma, seguida de uma análise do nosso próprio comportamento
e estabelecer um pacto. Se dermos espaço ao doente para se explicar
normalmente a relação melhora e a conciliação
aparece. Mas devemos colocar a nós próprios a seguinte questão:
qual dos parceiros terá mais capacidade para resolver o problema?
O médico, temos isso como certo.
5
Proposta
de resolução
Procurar a verdadeira causa do comportamento do doente.
Tentar perceber essa causa e lidar com ela da melhor forma.
Induzir o doente a confiar nele próprio.
Destruir mitos e retirar rótulos.
Estabelecimento de um pacto de confiança.
Envolver o doente nas decisões terapêuticas.
É igualmente importante estar atento aos acompanhantes, pois estes
podem criar dificuldades comunicacionais.
O rótulo
que é aplicado a estes doentes pode gerar neles próprios
um sentimento de injustiça, provocando um ciclo vicioso de desconfiança
mútua. Pode ser necessário registar os incidentes no caso
de doentes reincidentes e pode mesmo ser necessário arranjar um
mediador externo que ouça ambas as partes. Caso a rotura da relação
médico-doente seja inevitável, deve ser dado conhecimento
a todos os profissionais que constituem a equipa de trabalho. Como medida
de último recurso deverá ser negociada a mudança
de médico de família, mas o clínico deve ter em atenção
que, não só está a criar um problema ao doente mas
também ao seu colega da equipa. A experiência diz-nos que
não podemos ser tão rígidos como a técnica
nos ensina. Cada um vai encontrando a sua forma de agir com os seus doentes
difíceis.. Alguns autores incitam os médicos a efectuar
grupos «Balint», estágios de comunicação
interactiva, técnicas de negociação, psicodrama etc.,
para se sentirem mais habilitados a enfrentar os doentes considerados
difíceis .
Devemos ser capazes de ser o mais justo e equilibrado possível.
6
Bibliografia
Balint
M. O Médico o seu doente e a doença.Junho 1998; 1ª
edição Lisboa.
Beate J,
Skorpen J, Malterud K. What did the doctor say - what did the patient
hear? Operational knowledge in clinical communication. Family Practice
1997; 14: 382-386.
Dificultés
et limits. In: Panchain D, Attalic C, Butler J, Clêment E, Gay B,
Olombel P, Romy JL. Médicine Géneral: concepts et pratiques.
Paris: Massou 1996 ;155-161.
Erde E L,
Nadal E , Scholl T º On truth telling and the diagnosis of Alzheimer,s
disease. J Fam Pract 1988; 26:401-406.
Gerrard T
J, Riddell J D.Dificult patients: black holes and secrets. BMJ August
1988; 297: 20-27.
McWhinney
I R. A Textbook of Family Medicine :Doctor-Patient comunication. 1989;
96-97
Orr RD. Treating
Patients from Other Cultures. In: Medicine and Society. American Family
Physician May 1996;53:2004-6.
Schafer S,
Nowlis DP. Personality Disordes among Difficult Patients. Archives Family
Medicine Mar/Apr1998;7:126-129.
Setness AP.
Culturally competent healthcare. In: Postgraduate Medicine February 1998;
103 no 2:13-16.
Shapiro J,
Lenahan P. Family Medicine in a Culturally Diverse World: A Solution-oriented
Aproach to Common Cross-cultural Problems in Medical Encounters. Department
of Family Medicine 1996;28:249-55.
Vassilas
C A, Donaldson J. Telling the truth: what do general practitioners say
to patients with dementia or terminal cancer?. British Journal of General
Practice Marsh 1998; 48:1081-1082.
|