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Parte IV – Problemas clínicos
4.7. Abordagem do paciente com problemas endócrinos,  metabólicos e da nutrição
269. Prevenção da obesidade
Olga Xavier
Documento de trabalho
última actualização em Dezembro 2000

Contacto para comentários e sugestões: Gallego, Rosa

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Prevenção
A relação entre a morbilidade/mortalidade e a obesidade é uma relação já cientificamente comprovada por numerosos estudos. A OMS, em 1997, apresentou uma relação entre a obesidade e o risco de comorbilidades. As comorbidades consideradas são a diabetes tipo 2, a diminuição da tolerância à glicémia, hiperinsulinémia, hiperlipidémia e hipertensão arterial (Quadro I).

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Quadro I 

Classificação modificada de obesidade e risco de comorbilidades

Classificação  IMC (Kg/m2) Risco de comorbilidade
Limites do normal 18,5-24,9 Médio
Excesso de peso 25-29,9  >
Obesidade de grau I 30-34,9 Moderado
Obesidade de grau II 35-39,9 Elevado
Obesidade de grau III >=40 Muito elevado

A coexistência de factores de risco cardiovascular agrava o risco de mortalidade. Se o peso normalizar, o risco de morte reduz-se, independentemente da duração da obesidade.
Dada a relação estreita entre a obesidade e a mortalidade importa garantir a sua prevenção ao nível primário, secundário e terciário.
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Prevenção Primária
A população em geral deve, idealmente, ser o alvo desta prevenção, mas não sendo exequível, há que privilegiar as donas de casa e os grupos de risco, a saber:
- filhos de pais obesos;
- filhos e familiares em primeiro grau de diabéticos tipo 2;
- filhos e familiares com hipertrigliceridémias;
- indivíduos com excesso de peso ao nascimento e primeiros meses de vida;
- indivíduos obesos na infância e adolescência.
Esta prevenção deve assentar na educação para a saúde, através de programas dirigidos aos grupos de risco, às donas de casa e às pessoas responsáveis pela alimentação na comunidade (escolas, cantinas, lares de reformados, centros de dia e comunitários, etc.), com vista à mudança do comportamento alimentar e à prática de exercício físico.
Estes programas devem, salvaguardadas as características culturais e económicas da população, desenvolver a prevenção nutriológica uma vez que a nutrição é a parte visível e controlável do «iceberg» etiopatogénico da obesidade. Instituir uma alimentação saudável é, hoje, de elevado interesse sanitário pela redução dos desequilíbrios alimentares mais frequentes na obesidade, tais como:
- excesso de comida e refeições hipercalóricas, relativamente às exigências intrínsecas do metabolismo e ao nível da actividade física;
- reduzida ingestão de água, de alimentos cozinhados aquosos, de produtos hortícolas, de produtos cerealíferos, não mastigar nem ensalivar bem;
- ausência de pequenas refeições ao longo do dia;
- bebidas alcoólicas em excesso, que aumentam a ração calórica e o apetite;
- excesso de gorduras, que interferem na multiplicação dos adipócitos;
- abuso de açúcar, outros dissacarídeos e alcoóis fora das refeições, em bebidas ou guloseimas;
- “comida de cafetaria”, supercalórica; com um excesso de gordura e açúcar, cerca de 60% de calorias disponíveis e um desequilíbrio energético; esta alimentação causa hiperplasia adipocítica progressiva, grande obesidade e obesidade mórbida. 
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Prevenção secundária
1. Dieta
A elaboração de uma dieta para o indivíduo obeso deve ser fundamentada nos aspectos psíquicos individuais, fraccionada em pequenas refeições diárias (pelo menos, seis) tomadas em horários regulares, com um intervalo máximo de 3,5 h e efectuadas à mesa.
A implementação de uma dieta deve envolver sempre os seguintes procedimentos:

- a história alimentar do indivíduo, visando a avaliação quantitativa e qualitativa e estabelecendo as bases para a determinação do total calórico a instituir e sua distribuição;

- efectuar um inquérito alimentar das 24 horas anteriores, com o número de refeições, horário, composição, local, com quem, alimentos preferidos, ritmo de vida, número de reuniões excepcionais, alimentos “proibidos” por razões pessoais, religiosas ou culturais;

- efectuar um registo alimentar diário, pelo período de uma semana;

- determinar o estado nutricional e a evolução ponderal através da idade, estatura, peso actual, peso habitual, peso ideal, relação cintura/anca, IMC/classe de Garrow, actividade profissional, actividades extra e complicações associadas;

- determinação do peso ideal pela fórmula Metropolitana Life Insurance Company e Butheaut = 0,5 [(50+0,75 (estatura–150) + 0,8 (estatura–100)] + idade/2.

- se o consumo for superior a 1800 Kcal., deve reduzir-se 30 a 40%. Se for inferior a 1.800 Kcal diminuir 20 a 30%; as dietas devem ter, no mínimo, 1.200 Kcal na mulher e 1.500 Kcal no homem; restrições mais severas, em ambulatório, podem diminuir a aderência dos obesos e/ou causar mal nutrição; numa mulher em idade fértil, há que reforçar o nível de ferro.

A dieta deve conter os macro nutrientes assim distribuídos em percentagem:

- proteínas: 0,8 gr/Kg de peso ideal/dia, pois um aumento exagerado da restrição proteica pode provocar perdas graves da massa muscular com fadiga intensa;

- lípidos: 30%;

- hidratos de carbono: 56%, sem açúcar, usar alimentos ricos em amido;

- fibras: dão a sensação de saciedade, melhoram o funcionamento intestinal e têm baixo valor calórico;

- álcool fornece calorias vazias, no máximo usar 7% do valor calórico total;

- oligoelementos essenciais e vitaminas;

2. Exercício programado e/ou fisioterapia
O exercício físico diminui a doença cardiovascular, a osteoporose, as alterações intestinais e a depressão. Os obesos devem saber os gastos calóricos das actividades (Quadro II):

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Quadro II

Gastos calóricos das diferentes actividades

Actividade  Kcal/h
Sedentária Cerca de 150
Leve 150-300
Moderada  300-450
Pesada  450-600
muito pesada 600-1000


3. Acompanhamento psicológico, do sedativo à terapia comportamental e familiar.

4. Diminuição do stress por técnicas de relaxamento e /ou psicoterapia;

5. Tratamento farmacológico e/ou cirúrgico da obesidade instalada; não é específico, não cura, mas por vezes dá resultados, sendo fundamental na prevenção secundária e terciária. A intervenção terapêutica na obesidade depende da sobrecarga ponderal (Quadro III):

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Quadro III

Intervenção terapêutica na obesidade

PESO/
TERAPIA
Peso Normal
IMC 20-25
Excesso de Peso
IMC 25-30
Obesidade não ComplicadaIMC 30-35 Obesidade Complicada
IMC 35-40
Super Obesidade
IMC > 40
Dieta Hipocalórica Não Sim Sim Sim Sim
Exercício Físico Sim Sim Sim Sim Sim/Não
DMBVC Não Não Não Sim Sim/Não
Alterações Comportamentais Sim Sim Sim Sim Sim
Terapia Comportamental Não Sim Sim Sim Sim
Sedativos  Não Sim Sim Sim Sim
AntiDepressivo Nova Geração Não Sim Sim Sim Sim
Anorexígenos Não Não Não/Sim Sim Sim
Serotoninérgicos Não Sim Sim Sim Sim
Orlistat Não Sim Sim Sim Sim
Cirurgia Gástrica Não Não Não Sim Sim

(DMBVC - dieta de muito baixo valor calórico)

O tratamento da obesidade é difícil e com resultados desanimadores: 95% dos obesos tratados recuperam o peso nos dois a três anos subsequentes.
O Orlistat é o único fármaco para o tratamento da Obesidade instalada sem efeitos sistémicos uma vez que só é absorvido sistémicamente menos de 3%. Actua como inibidor específico das lipases gastrointestinais, reduzindo em cerca de 30% a absorção dos triglicerídeos ingeridos. Mais de sete estudos multicêntricos de grandes dimensões, em dupla ocultação, randomizados, realizados na Europa e nos EUA, mostraram estas vantagens.
Também há que prevenir as flutuações do peso, denominadas ciclo do peso ou síndrome do “yo-yo”. Estas estão relacionadas com o aumento da mortalidade, com a relação tecido adiposo/tecido magro, a relação cintura/anca, a diminuição do metabolismo basal e comprometem o sucesso de tratamentos futuros.
Os programas de tratamento da obesidade com maior êxito, usam um método multidisciplinar: dietas hipocalóricas, alteração do comportamento alimentar, exercícios aeróbicos, apoio social e familiar. São tratamentos que devem ter metas curtas: de 0,5 a 1 Kg/semana, durar 6 e 12 meses, com controlo semanal durante o primeiro mês, depois mensal, bimensal e anual.
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Prevenção Terciária
Visa evitar o aparecimento ou a evolução das complicações como hipertensão arterial, diabetes mellitus tipo 2, hiperlipidémia, coronariopatia, doença articular degenerativa, incapacidade psicosocial, cancros como o do colon, do recto, da próstata, do útero, das vias biliares, do ovário e da mama, transtornos tromboembólicos, doenças do aparelho digestivo como cálculos vesiculares, esofagite de refluxo; alterações cutâneas, aumento do risco cirúrgico e obstétrico, maior risco de deteriorações pulmonares funcionais, anomalias endócrinas, proteinúria e aumento de concentração da hemoglobina.
A prevenção terciária deve atender e evitar também, os efeitos negativos que surgem após as perdas de peso sem base científica. Estes foram descritos pelo Michigan Health Council Task Force:
- arritmias cardíacas, hipokaliémia, hiperuricémia, fadiga, carências vitamínicas e de oligoelementos, lesão da vesícula biliar, perdas graves de massa muscular e morte;
- alterações psicológicas como depressão e diminuição da auto estima;
- crises de voracidade («binge eating») e doenças do comportamento alimentar (DCA);
- complicações a longo prazo e lesões indirectas de órgãos;
- lesões secundárias ao ciclo de peso;
- descrença no tratamento que vai ajudar a eternizar o problema.
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Objectivos gerais da prevenção da obesidade
- Ensino das noções nutricionais básicas
- Obtenção e manutenção do peso ideal, através de uma dieta adaptada;
- Prevenir e/ou tratar as complicações da sobrecarga ponderal;
- Evitar o ciclo de peso ou síndrome do «yo-yo» e suas consequências nefastas;
- Evitar as complicações secundárias às perdas de peso desequilibradas;
- Aumentar o exercício físico;
- Promover o equilíbrio psíquico.
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