A importância do Médico de Família: o que mais valorizam os utentes

 

 

A Medicina Geral e Familiar é uma disciplina académica e científica, com os seus próprios conteúdos educacionais, investigação, base de evidência e atividade clínica e é a especialidade base onde assentam os Cuidados de Saúde Primários.1 Esta especialidade é dotada de variadas caraterísticas que importam relembrar, sendo que uma das mais diferenciadoras é tratar-se do primeiro ponto de contacto médico com o sistema de saúde, lidando com todos os problemas de saúde, independentemente de qualquer caraterística da pessoa a tratar. 1 Além disso, é através do Médico de Família que o utente consegue navegar no sistema de saúde e contactar com profissionais de outras especialidades médicas.2

Um dos valores fundamentais da disciplina de Medicina Geral e Familiar é praticar uma medicina centrada na pessoa, com enfâse no diálogo, no contexto e na evidência científica mais atualizada. 2 De facto, o Médico de Família tem a capacidade de lidar com os problemas de saúde em todas as suas dimensões (física, psicológica, social, cultural e existencial) e considerar o impacto destes determinantes na saúde do indivíduo, valorizando, assim, o conceito de dolência.1, 2

Uma outra particularidade, é a prestação de cuidados de forma longitudinal, isto é, de forma contínua em todas as fases do ciclo de vida familiar do utente, criando uma relação de confiança mútua ao longo de anos com este através dos contactos repetidos 1 e possibilitando a prestação de cuidados centrados na pessoa de elevada qualidade .2

Cabe ao Médico de Família a vigilância de uma gravidez de baixo risco, assim como a vigilância infantil e juvenil, passando ainda pela prevenção, diagnóstico e controlo das doenças mais prevalentes como a hipertensão e a diabetes mellitus. Ademais, cabe-lhe também a gestão dos cuidados de fim de vida, os cuidados paliativos e o processo do luto. Importa também referir que o Médico de Família gere tanto patologia aguda como crónica,1 assim como consulta indivíduos saudáveis e atua na prevenção, vigilância e rastreamento de doenças, tais como o cancro colo retal, cancro do colo do útero e cancro da mama.

Estudos têm demonstrado que a continuidade de acesso a um Médico de Família também diminui o risco de mortalidade.3,4

Esta especialidade médica rege-se pela prestação de cuidados equitativos de saúde, isto é, prioriza aqueles que têm mais necessidade de cuidados de saúde, de forma a minimizar as desigualdades na oferta dos serviços.2 Esta especialidade está especialmente atenta aos desafios de saúde enfrentados por certos grupos populacionais, relacionados com a idade, género, orientação sexual, etnicidade, nível socioeconómico e orientação religiosa.2

Além disso, o Médico de Família deve pautar as suas intervenções com base na díade custo-efetividade e, concomitantemente, evitar a sobre-examinação, o sobrediagnóstico e o sobretratamento que originam desfechos negativos e sofrimento para o utente.2

Se transmitirmos aos utentes que a prática da Medicina Geral e Familiar é baseada em evidência científica e que os médicos avaliam frequentemente conhecimentos e guidelines de forma crítica e que aquilo que lhes é proposto, relativamente a tratamentos e atividades preventivas, lhes traz mais benefício do que dano, então estaremos a dar-lhes segurança e tranquilidade.2

Em suma, os Médicos de Família providenciam cuidados médicos a indivíduos, respeitando todas as suas caraterísticas pessoais e valorizando sempre a sua autonomia e promovem a saúde ao nível da comunidade.1, 2

Tendo como mote o Dia Mundial do Médico de Família que se está a aproximar, decidimos desafiar os utentes da USF Trilhos Dueça, unidade na qual estamos alocadas, a deixar numa caixa disponível na sala de espera, um comentário sobre a importância de ter um Médico de Família. Foi com entusiasmo que nos deparamos com a marcada adesão. De forma geral, os utentes atribuíram grande importância ao Médico de Família, por diversas razões. Entre as mais apontadas estão: por ser um fácil acesso aos cuidados de saúde; por permitir o encaminhamento às especialidades hospitalares; por se traduzir em cuidados de proximidade; por ser um médico próximo e altamente familiarizado com o seu utente; por ser um médico de toda a família e de “todas as camadas da sociedade”, permitindo reduzir as desigualdades sociais; por ser um confidente; por transmitir segurança ao estar disponível para o utente; por contribuir para o bem-estar do utente.

Os comentários deixados fazem-nos concluir que é grande o peso atribuído à relação médico-doente. Estamos conscientes de que esta relação é a pedra basilar da profissão médica, tendo impacto na satisfação do doente e do médico, bem como no sucesso terapêutico.

Por Rebeca Cunha e Diana Callebaut, USF Trilhos Dueça

 

Referências bibliográficas
1 World Organization of Family Doctors (WONCA). The European Definition of General Practice Family Medicine. WONCA Europe. 2023
2 World Organization of Family Doctors (WONCA). Core Values and Principles of General Practice/Family Medicine. WONCA Europe. 2022
3 Abdul Jabbar AB, Talha KM, Nambi V, Abramov D, Minhas AMK. Primary care physician density and mortality in the United States. J Natl Med Assoc. 2024;116(5):600-606. doi:10.1016/j.jnma.2024.10.001
4 Basu S, Berkowitz SA, Phillips RL, Bitton A, Landon BE, Phillips RS. Association of Primary Care Physician Supply With Population Mortality in the United States, 2005-2015. JAMA Intern Med. 2019;179(4):506-514. doi:10.1001/jamainternmed.2018.7624

 

 

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