
Pergunta clínica: Em mulheres com vaginose bacteriana, o tratamento simultâneo do parceiro masculino com metronidazol oral e clindamicina tópica reduz a taxa de recorrência da infeção, quando comparado com o tratamento apenas da mulher?
Desenho do estudo: Ensaio clínico aleatorizado, multicêntrico e aberto, realizado na Austrália. Foram incluídas 164 mulheres ≥18 anos com diagnóstico de vaginose bacteriana (≥3 critérios de Amsel e pontuação de Nugent ≥4) e parceiro masculino regular. Todas as mulheres foram tratadas com metronidazol oral (ou alternativas tópicas, caso contraindicado). Os parceiros, no grupo de intervenção, receberam metronidazol oral 400 mg BID durante 7 dias e clindamicina tópica 2% aplicada no pénis (incluindo sob o prepúcio, quando aplicável). O desfecho primário foi a recorrência de vaginose bacteriana nas mulheres às 12 semanas, definida pelos mesmos critérios diagnósticos.
Resultados: Verificou-se uma taxa de recorrência significativamente inferior no grupo com tratamento do parceiro (35%) comparativamente ao grupo controlo (63%), com um número necessário para tratar (NNT) de 3,5. O tempo até à recorrência foi também mais longo no grupo intervenção. A adesão dos homens ao protocolo foi variável, com apenas 59% a cumprirem ≥70% do tratamento. Os efeitos adversos foram ligeiros e pouco frequentes (apenas 4 casos de irritação cutânea). Os resultados mantiveram-se consistentes nas análises por intenção de tratar e por protocolo.
Comentário: Este estudo aborda uma questão frequentemente negligenciada na prática clínica: o papel do parceiro masculino na recorrência da vaginose bacteriana. Com um nível de evidência elevado, os resultados sustentam que o tratamento concomitante do parceiro reduz significativamente o risco de reinfeção. Esta abordagem exige maior sensibilização dos profissionais de saúde e adesão dos casais à terapêutica, mas poderá representar um avanço importante na redução da morbilidade associada à vaginose bacteriana. Em Portugal, onde a infeção é comum, mas muitas vezes subvalorizada, este estudo reforça a necessidade de estratégias integradas e centradas no casal.
Por André Maçães, USF S. João do Porto
