
Quando o sonho expõe as falhas do presente na Medicina Geral e Familiar
Caros colegas,
Permitam-me a indulgência de usar este espaço para partilhar convosco um sonho daqueles assumidamente irrealistas, que nos acompanham há anos em silêncio.
Sou médica de família há “alguns anitos”. Terminei o internato em 2019, o que me coloca naquele lugar curioso entre a energia de quem ainda acredita que pode mudar o mundo e o cansaço de quem já percebeu que o mundo nem sempre quer ser mudado. Ainda assim, conto com mais umas boas décadas nesta luta diária por uma Medicina Geral e Familiar de qualidade e talvez por isso continue a achar que vale a pena sonhar.
Chamemos-lhe USF Utopia.
Na USF Utopia, temos uma equipa verdadeiramente multidisciplinar. Para além do médico, do enfermeiro e do secretário clínico, contamos com um nutricionista, um psicólogo e – porque não? – um fisioterapeuta “de família”. E, já agora, acesso efetivo a cuidados de medicina dentária, tantas vezes esquecidos no SNS, apesar do seu impacto inequívoco na saúde global.
Profissionais acessíveis, integrados, a trabalhar em proximidade, como parte da mesma equipa e não como recursos distantes ou inacessíveis.
Na USF Utopia, as listas não estão sobredimensionadas. Há tempo, tempo real, para escutar, para pensar, para cuidar. O utente é, de facto, o centro dos cuidados, e não apenas uma intenção em documentos estratégicos.
Paradoxalmente, talvez esta organização até nos tornasse mais produtivos. Porque deixávamos de tentar ser tudo para todos. Porque deixávamos de compensar, com esforço individual, aquilo que falta em estrutura. Queremos prestar cuidados holísticos, mas a verdade é que não temos, nem temos de ter, competências em psicologia, nutrição, fisioterapia, exercício físico ou intervenção social. E, no entanto, quantas vezes somos empurrados para esse papel, por falta de alternativa acessível para os nossos utentes?
Mas talvez o problema comece ainda antes.
Antes da consulta. Antes da doença.
Falamos muito de prevenção, mas continuamos a falhar na sua base mais essencial. As políticas de saúde pública permanecem frequentemente desfasadas da realidade: novas formas de consumo de tabaco escapam à regulamentação efetiva, a oferta alimentar permanece profundamente desequilibrada, e o ambiente em que os nossos utentes vivem continua a promover escolhas pouco saudáveis.
Como combater a epidemia da obesidade quando a exposição a alimentos ultraprocessados é massiva e constante? Como promover estilos de vida saudáveis sem uma estratégia estruturada de literacia em saúde desde a infância? E sem políticas consistentes de promoção da atividade física, com programas acessíveis e sustentados na comunidade, idealmente em articulação com as autarquias? Existem bons exemplos locais, mas a oferta permanece escassa e desigual.
E, no meio de tudo isto, continuamos nós, muitas vezes sozinhos, a tentar compensar falhas que são sistémicas.
Talvez por isso, mesmo sem utopias, haja mudanças mais próximas que não devíamos ignorar.
A tecnologia já nos oferece ferramentas que poderiam transformar o nosso dia-a-dia. Assistentes de inteligência artificial capazes de apoiar os registos clínicos, de reduzir a carga administrativa, de nos devolver aquilo que mais falta: tempo. Tempo para olhar para o utente, para escutar sem interrupções, para exercer verdadeiramente a nossa função.
A USF Utopia pode não existir. Talvez nunca venha a existir.
Mas entre o cenário atual e a utopia há um espaço possível e é nesse espaço que devemos insistir.
Porque, no fim, mais do que utopias, move-nos a convicção de que a Medicina Geral e Familiar pode e deve ser melhor.
Por Carolina Baptista Araújo, USF Terra Marinhoa, ULS Região de Aveiro
