
Pergunta clínica: Em utentes com insuficiência cardíaca (IC) e fração de ejeção ventricular esquerda (FEVE) ligeiramente reduzida ou preservada (≥40%), a finerenona, adicionada à terapêutica habitual, reduz a taxa de eventos totais de agudização da insuficiência cardíaca e de morte por causas cardiovasculares?
Desenho do estudo: Trata-se de um ensaio internacional, multicêntrico, aleatorizado, duplamente cego e controlado por placebo (ensaio FINEARTS-HF). Foram incluídos indivíduos com idade igual ou superior a 40 anos, com IC sintomática, FEVE ≥40%, evidência de doença cardíaca estrutural e níveis elevados de peptídeos natriuréticos, num total de 6001 participantes. Os participantes foram aleatorizados numa proporção de 1:1 para receber finerenona (dose máxima de 20 mg ou 40 mg uma vez por dia) ou placebo correspondente, em adição à terapêutica habitual.
Resultados: A idade média dos participantes era de 72 anos. A FEVE média foi de 52,6±7,8% no grupo finerenona e de 52,5±7,8% no grupo placebo. A maioria dos indivíduos encontrava-se na classe funcional II da NYHA. Entre 40,5% e 40,8% dos participantes tinham diabetes mellitus tipo 2. No início do estudo, entre 13,1% e 14,1% dos utentes estavam medicados com inibidores da SGLT2.
Durante um seguimento mediano de 32 meses, o desfecho primário, composto por eventos totais de agudização da IC e morte por causas cardiovasculares, ocorreu em 1083 eventos em 624 de 3003 doentes no grupo finerenona e em 1283 eventos em 719 de 2998 doentes no grupo placebo.
A finerenona associou-se a um aumento do risco de hipercaliemia. No entanto, nenhum episódio resultou em morte. A hipercaliemia levou à hospitalização de 0,5% dos indivíduos no grupo finerenona versus 0,2% no grupo placebo. O número total de eventos de agudização da IC foi significativamente inferior no grupo tratado com finerenona, que se associou também a uma melhoria moderada do estado de saúde autorreportado pelos participantes. Observou-se ainda um efeito significativo na redução da mortalidade por causas cardiovasculares. Contudo, não se verificou benefício na melhoria da classe funcional NYHA.
Comentário: A insuficiência cardíaca é uma patologia prevalente e cada vez mais diagnosticada, para a qual subsiste uma necessidade terapêutica não totalmente satisfeita, apesar da disponibilidade de opções recentes, como os inibidores da SGLT2. O estudo FINEARTS-HF demonstrou que a finerenona reduziu significativamente o desfecho primário composto por eventos totais de agudização da IC e morte por causas cardiovasculares. Os resultados foram consistentes, mesmo em indivíduos previamente tratados com inibidores da SGLT2. Apesar dos efeitos adversos observados, nomeadamente a hipercaliemia, importa salientar a raridade de hospitalizações por essa causa e a ausência de eventos fatais, o que sugere uma gestão clínica eficaz da hipercaliemia e um perfil de segurança favorável da finerenona, a par dos benefícios clínicos observados nos doentes com IC neste estudo.
Por Sara Silva Ribeiro, USF Vimaranes
