Biblioterapia – Quando os livros são o melhor remédio

 

 

 

Diversos estudos atuais conseguem demonstrar o impacto que a biblioterapia tem em várias dimensões.

 

O Médico de Família é um verdadeiro privilegiado: é o único médico que tem a vantagem de acompanhar o seu utente desde que nasce, até ser uma criança que começa a escola com entusiasmo; um adolescente confuso e obstinado; um adulto que constrói a sua família de todas as formas e feitios; um idoso com mil histórias para contar e, por vezes, sem ninguém para as ouvir.
Também existe um objeto com este privilégio: o livro. E do livro, “biblion”, e a necessidade de dispensar cuidados a alguém, “therapeira”, nasce o termo biblioterapia.
Da mesma maneira que tenho memórias repletas da minha médica de família e da enfermeira que me dava “picas” (mas também um chocolatinho pela minha coragem), tenho memórias de, em todas as fases da minha vida, ter um livro ao lado. Pequenina, pequenina, ouvia o meu pai a ler a história do Marco, que ficou triste por a mãe ter de ir trabalhar para longe, mas percebeu o sacrifício que uma mãe faz pelo filho. Um bocadinho mais crescida, lembro-me de todas as histórias que li à minha mãe, enquanto ela cozinhava o jantar, para “treinares a tua dicção, porque a professora mandou outro recado”. Aos 11 anos, o primeiro livro do Harry Potter, que li na noite de Natal até ser dia. No secundário, os livros que andavam sempre na mochila e faziam companhia no autocarro que me levava para todo o lado e me faziam sentir um bocadinho menos confusa e sozinha. Na faculdade, o Harrison (mentira, quase vos enganei). Reformulando, na faculdade, os romances, as fantasias, tudo o que fosse ficção e me fizesse parar de rever mentalmente todas as colaterais da artéria cerebral média, não fosse eu chumbar à oral de anatomia III, porque me esqueci de alguma (e não é que esqueci mesmo – o recurso não foi assim tão mau). Agora, médica interna de Medicina Geral e Familiar, posso dizer que o melhor momento do dia é quando pego num livro,  com a caneca de chá (ok, geralmente é café) e o meu cérebro desliga de todas as consultas que fiz, todas as decisões médicas que tomei, todas as tarefas que não consegui acabar, ou aquele tema difícil que ainda não consegui estudar. Torna-se o momento em que em vez de pensar em sete coisas simultaneamente, apenas estou focada numa. Para mim é o livro, para outros é a música, o desporto, a família, os amigos e para muitos afortunados, tudo isto e ainda mais. Com este percurso, percebemos o impacto que os livros podem ter na vida de alguém, principalmente daqueles em que os pais, os professores, o bibliotecário da escola, os irmãos, os amigos e o Médico de Família, decidiram introduzir os livros na vida daquela pessoa. E não é só o meu percurso que espelha isso; diversos estudos atuais conseguem demonstrar o impacto que a biblioterapia tem em várias dimensões: como terapêutica adjuvante na ansiedade e coping após um diagnóstico de cancro (1); como elemento de reabilitação em pacientes com esquizofrenia, de maneira a conseguirem organizar a sua narrativa, em relação a si e aos outros (2); na diminuição de sintomas de perturbação depressiva em adultos, a longo prazo (3); na gestão de stress laboral (4); na redução dos níveis de ansiedade em crianças internadas em meio hospitalar (5). Estes são só alguns exemplos da potencialidade que livros, e em particular, livros prescritos com especificidades que possam beneficiar determinados grupos, podem trazer. Em grupos com psicopatologia, é fundamental relembrar que a “prescrição” do livro deve ir ao encontro da necessidade do leitor naquela fase de vida. A biblioterapia tem ainda a vantagem de poder ser facilmente implementada em diversos locais (e sem grandes custos monetários através do uso de bibliotecas) como hospitais, lares, escolas e instituições. Esquemas de biblioterapia já foram implementados com sucesso em vários ambientes de cuidados de saúde, incluindo nos cuidados de saúde primários (6). Para além disto tudo, não esqueçamos do poder de união que a literatura pode ter – é o momento que junta pais e filhos na leitura antes de dormir, vizinhos no clube de leitura da biblioteca do bairro, um grupo de amigos que se reúne para falar de livros, num café diferente de cada vez. Já imaginaram como seria o mundo se, para além de uma maçã, o Médico de Família também aconselhasse algumas páginas por dia? É que nem imagina o bem que lhe fazia.

Por Helena Nogueira Martins, USF Pulsar

Referências:

(1) Malibiran R, Tariman JD, Amer K. Bibliotherapy: Appraisal of Evidence for Patients Diagnosed With Cancer. Clin J Oncol Nurs. 2018 Aug 1;22(4):377-380. doi: 10.1188/18.CJON.377-380. PMID: 30035795

(2) Kasperek-Zimowska BJ, Bednarek A, Giguere M, Orłowski W, Sawicka M. The specificity of the use of bibliotherapy as an element of psychiatric rehabilitation in a group of patients suffering from schizophrenia. Postep Psychiatr Neurol. 2021 Dec;30(4):278-286. doi: 10.5114/ppn.2021.111946. Epub 2021 Dec 21. PMID: 37082560; PMCID: PMC9881641

(3) Gualano MR, Bert F, Martorana M, Voglino G, Andriolo V, Thomas R, Gramaglia C, Zeppegno P, Siliquini R. The long-term effects of bibliotherapy in depression treatment: Systematic review of randomized clinical trials. Clin Psychol Rev. 2017 Dec;58:49-58. doi: 10.1016/j.cpr.2017.09.006. Epub 2017 Sep 29. PMID: 28993103

(4) Restrepo J, Lemos M. Addressing psychosocial work-related stress interventions: A systematic review. Work. 2021;70(1):53-62. doi: 10.3233/WOR-213577. PMID: 34511476

(5) Lawrence EJ, Lazer J. Effective reduction of anxiety in hospitalised children through bibliotherapy. Acta Paediatr. 2024 Jun;113(6):1349-1355. doi: 10.1111/apa.17154. Epub 2024 Feb 21. PMID: 38381456

(6) Porter A, Peconi J, Evans A, Snooks H, Lloyd K, Russell I. Equity and service innovation: the implementation of a bibliotherapy scheme in Wales. J Health Serv Res Policy. 2008 Apr;13 Suppl 2:26-31. doi: 10.1258/jhsrp.2007.007098. PMID: 18416926

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