Diminuição de tromboembolismo com contracetivos orais contendo estrogénios bioidênticos

 

 

Contexto: Os contracetivos hormonais combinados estão associados a um aumento do risco de tromboembolismo venoso, sendo o etinilestradiol o estrogénio mais utilizado nestas formulações. Os estrogénios bioidênticos, como o valerato de 17β-estradiol e o estetrol, parecem ter menor impacto na coagulação e poderão associar-se a menor risco trombótico.

Pergunta clínica: Os contracetivos orais combinados contendo estrogénios bioidênticos apresentam menor frequência de notificações de tromboembolismo venoso do que os que contêm etinilestradiol?

Desenho do estudo: Estudo observacional descritivo de farmacovigilância, baseado na base de dados da United States Food and Drug Administration Adverse Event Reporting System (FAERS). Foram analisadas notificações de eventos adversos desde o início da base FAERS até outubro de 2024. Compararam-se contracetivos contendo estetrol/drospirenona ou valerato de 17β-estradiol/dienogeste com formulações contendo etinilestradiol, utilizando como referência a associação EE/levonorgestrel e, secundariamente, toda a classe dos contracetivos orais combinados. Foram calculados proportionality reporting ratios (PRR), considerando clinicamente significativo um valor superior a 2. Foram ainda realizadas análises de sensibilidade.

Resultados: Face ao etinilestradiol/levonorgestrel, o PRR foi inferior para estetrol/drospirenona (0,54; IC95% 0,30–0,99) e valerato de 17β-estradiol/dienogest (0,79; IC95% 0,65–0,97). Estes valores foram semelhantes aos observados para contracetivos apenas com progestativo: drospirenona (0,64) e noretisterona (0,69). Em contraste, etinilestradiol/drospirenona apresentou o maior PRR (5,18; IC95% 4,95–5,42). Quando comparados com toda a classe dos contracetivos combinados, os resultados mantiveram-se favoráveis aos estrogénios bioidênticos.

Comentário: Este estudo acrescenta evidência de farmacovigilância consistente com dados biológicos, observacionais e de outras bases de dados, sugerindo que os contracetivos combinados contendo estetrol ou 17β-estradiol poderão apresentar um perfil trombótico mais favorável do que as formulações com etinilestradiol. Contudo, os resultados não permitem estimar a incidência real de tromboembolismo venoso nem estabelecer causalidade. As bases de notificações espontâneas estão sujeitas a subnotificação, duplicação de casos, viés de indicação e ausência de informação sobre fatores individuais como obesidade, tabagismo ou trombofilia. Além disso, o número de notificações para os produtos mais recentes, particularmente estetrol/drospirenona, foi reduzido e algumas diferenças perderam significância nas análises de sensibilidade. Na prática clínica, estes resultados podem ser considerados na discussão individualizada da escolha contracetiva, sobretudo quando a minimização do risco trombótico é uma preocupação. No entanto, não justificam por si só a substituição sistemática das formulações disponíveis, sendo necessários estudos comparativos prospetivos para quantificar melhor a diferença de risco.

Artigo original: Am J Obstet Gynecol

Por Jorge Talhada de Moura, USF Porto Centro

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