I Swear: o filme que ajuda a compreender a síndrome de Tourette

 

 

 

O filme I Swear, realizado por Kirk Jones e disponível há poucos dias no catálogo da Netflix Portugal, traz para o grande ecrã a história real de John Davidson, um ativista escocês com síndrome de Tourette, e constitui uma oportunidade para refletir sobre uma perturbação que continua a ser profundamente mal compreendida.
A interpretação do protagonista ganhou ainda maior destaque ao ser distinguida com o BAFTA de Melhor Ator, reconhecendo o trabalho de Robert Aramayo na difícil tarefa de representar os tiques motores e vocais e, sobretudo, o impacto que a síndrome de Tourette pode ter na vida de uma pessoa.
Mas I Swear é muito mais do que uma interpretação premiada. É um filme que ajuda a desmontar alguns dos estereótipos mais persistentes sobre a síndrome de Tourette.

Os tiques não são voluntários
A síndrome de Tourette é uma perturbação do neurodesenvolvimento caracterizada pela presença de tiques motores e vocais. Estes podem manifestar-se através de movimentos repetitivos, como piscar os olhos ou fazer movimentos bruscos da cabeça, mas também através de sons, palavras ou outras vocalizações involuntárias.
Um dos grandes méritos do filme é mostrar precisamente aquilo que muitas pessoas desconhecem: os tiques não são voluntários.
Uma pessoa com síndrome de Tourette não está simplesmente a comportar-se de forma estranha, provocadora ou inadequada. Embora possa, por vezes, conseguir suprimir temporariamente um tique, essa supressão pode ser acompanhada por uma sensação crescente de tensão ou desconforto.

E os palavrões?
A associação entre a síndrome de Tourette e o uso involuntário de palavrões é um dos estereótipos mais conhecidos, mas também um dos mais enganadores.
A coprolalia, isto é, a emissão involuntária de palavras ou expressões obscenas, pode ocorrer em algumas pessoas com síndrome de Tourette, mas está longe de ser uma característica obrigatória. A maioria das pessoas com síndrome de Tourette não apresenta coprolalia.
No caso de John Davidson, esta manifestação fazia parte da sua experiência pessoal e, por isso, tem um papel central no filme. Mas seria errado concluir que o retrato do protagonista corresponde à experiência de todas as pessoas com síndrome de Tourette.

 

Robert Aramayo consegue transmitir a frustração, o sofrimento, a vulnerabilidade e também a humanidade de alguém que é constantemente julgado por comportamentos que não escolheu.

 

O verdadeiro drama pode estar na reação dos outros
Talvez o aspeto mais poderoso de I Swear seja mostrar que o sofrimento associado à síndrome de Tourette não resulta apenas dos próprios sintomas.
Resulta também da forma como a sociedade reage: quando um tique vocal é interpretado como um insulto deliberado, quando um movimento involuntário é confundido com um comportamento bizarro, quando uma criança é alvo de gozo ou bullying, ou quando um adulto é visto como mal-educado, agressivo ou perturbado, sem que ninguém procure perceber o que realmente está a acontecer.
É neste ponto que o filme ultrapassa a simples representação de uma doença. I Swear é também uma história sobre preconceito, desconhecimento e estigma.
A interpretação distinguida com o BAFTA ajuda a tornar esta mensagem particularmente poderosa. Para além dos sintomas, Robert Aramayo consegue transmitir a frustração, o sofrimento, a vulnerabilidade e também a humanidade de alguém que é constantemente julgado por comportamentos que não escolheu.
I Swear merece, por isso, ser visto não apenas como um filme sobre a síndrome de Tourette, mas também como um convite a olhar duas vezes antes de julgar.
Porque, por vezes, aquilo que parece ser um comportamento estranho ou ofensivo não é uma escolha.
E compreender isso pode fazer toda a diferença.

 

 

Por Carlos Martins

 

 

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