
Contexto: O melhor horário para a administração de medicamentos anti-hipertensivos tem sido alvo de debate. Embora a toma matinal seja a prática mais comum, vários estudos têm procurado perceber se a administração noturna de anti-hipertensivos confere uma redução superior do risco cardiovascular, quando comparada com a toma matinal. Esta hipótese baseia-se na evidência de que a pressão arterial (PA) registada durante o período noturno constitui um melhor preditor de eventos cardiovasculares adversos do que a PA diurna. No entanto, os resultados dos estudos têm sido inconsistentes.
Pergunta clínica: Em adultos com hipertensão arterial medicados com anti-hipertensivos de toma única diária, a administração dos medicamentos ao deitar, comparativamente à administração pela manhã, reduz a ocorrência de eventos cardiovasculares ou a mortalidade por qualquer causa, sem aumentar os eventos adversos?
| P | Adultos com hipertensão arterial medicados com pelo menos um anti-hipertensivo de toma única diária |
| I | Administração de todos os anti-hipertensivos de toma única diária ao deitar |
| C | Administração dos anti-hipertensivos pela manhã |
| O | Redução de eventos cardiovasculares e mortalidade por qualquer causa, bem como avaliação da segurança da toma noturna |
Desenho do estudo: Ensaio clínico multicêntrico, no qual adultos com hipertensão arterial, a tomar pelo menos um medicamento anti-hipertensivo de toma única diária, foram randomizados numa proporção de 1:1 para tomar todos os medicamentos anti-hipertensivos de toma única diária ao deitar, no grupo de intervenção, ou pela manhã, no grupo de controlo. O outcome primário foi o tempo até à primeira ocorrência de morte por qualquer causa ou de hospitalização ou recurso ao serviço de urgência por acidente vascular cerebral, síndrome coronária aguda ou insuficiência cardíaca. Foram também avaliados outcomes secundários de segurança relacionados com a administração noturna, incluindo outcomes cognitivos, visuais e quedas e/ou fraturas.
Resultados: Um total de 3357 adultos foi randomizado para o grupo de intervenção (n = 1677) ou para o grupo de controlo (n = 1680), tendo sido seguido durante um período mediano de 4,6 anos. Numa análise por intenção de tratar, não se verificou uma diferença estatisticamente significativa entre os grupos relativamente ao outcome primário composto, com taxas de 2,3 versus 2,4 eventos por 100 doentes-ano nos grupos de toma ao deitar e de manhã, respetivamente (hazard ratio ajustado de 0,96; IC 95%, 0,77-1,19; p = 0,70). Também não se verificaram diferenças significativas nos componentes individuais do outcome primário. Relativamente à segurança da administração noturna de anti-hipertensivos, não se observaram diferenças significativas entre os grupos nos outcomes cognitivos, visuais ou relacionados com quedas e fraturas.
Comentário: No ensaio BedMed, a administração de medicamentos anti-hipertensivos ao deitar revelou-se segura, mas não reduziu o risco de eventos cardiovasculares ou de morte por qualquer causa quando comparada com a toma matinal. Os resultados sugerem que o horário da administração dos anti-hipertensivos poderá não ser tão determinante como anteriormente se pensava, devendo a escolha do momento da toma privilegiar as preferências e a conveniência para o doente, de forma a promover a adesão à terapêutica.
Por Soraia Ribeiro Fernandes
