Molhar o penso após cirurgia cutânea não aumenta ao risco de complicações

 

 

Pergunta clínica: A exposição à água nas primeiras 6 horas após excisão cirúrgica de lesões cutâneas, benignas ou malignas, aumenta o risco de infeção e de hemorragia?

População: Adultos com 18 ou mais anos, submetidos a excisão cirúrgica de lesões cutâneas benignas ou malignas, em regime ambulatório, por cirurgia convencional ou cirurgia micrográfica de Mohs.
Intervenção: Exposição precoce à água, com remoção do penso 6 horas após a cirurgia e contacto da ferida com água durante pelo menos 10 minutos.
Comparação: Tratamento padrão, com manutenção do penso inicial e da ferida seca durante as primeiras 48 horas após a excisão.
Outcomes: Infeção da ferida cirúrgica, hemorragia e formação de hematomas, qualidade da cicatriz avaliada pela escala POSAS.

Enquadramento: A recomendação habitual após incisão cutânea consiste em manter o penso inicial intacto e seco durante as primeiras 24 a 72 horas, com o objetivo de reduzir o risco de hemorragia e de infeção da ferida cirúrgica. Trata-se de uma prática tradicional e empírica, que pode ser bastante limitadora das atividades de vida diária em doentes submetidos a pequena cirurgia. Este estudo vem questionar esse paradigma.

Desenho do estudo: Ensaio clínico randomizado, single blinded (cego para os investigadores, impossível de ocultar para os participantes) com a participação de 437 adultos com 18 ou mais anos de idade que receberam tratamento excisional de lesões em regime ambulatório, seja com técnica padrão ou cirurgia micrográfica de Mohs. A cirurgia de Mohs é uma técnica de remoção camada-a-camada com exame extemporâneo microscópico para identificação de células malignas e dirigir a progressão da excisão, permitindo a preservação do tecido com margens mínimas sem perder a garantia de eliminação de célula neoplásicas. Os participantes foram distribuídos aleatoriamente e ocultados a um de dois grupos: o grupo de intervenção com exposição precoce à água (remover o penso após 6 horas e molhar a ferida no mínimo 10 minutos no chuveiro, banho ou piscina), e o grupo com o tratamento padrão mantendo o penso inicial e mantendo-o seco nas primeiras 48 horas. O seguimento foi 14 dias e uma subpopulação de 146 participantes foi avaliada após 6 meses.

Resultados: As taxas de hemorragia e de infeção pós-operatória foram semelhantes entre os dois grupos. A infeção ocorreu em 1,4% dos participantes no grupo de exposição precoce e em 1,8% no grupo de tratamento padrão. De igual forma, no seguimento prolongado não se observaram diferenças significativas na qualidade da cicatrização.

Conclusão: A exposição precoce à água, a partir de 6 horas após excisão de lesões dermatológicas, não se associou a um aumento do risco de infeção ou de hemorragia, nem a alterações nas características da cicatriz, quando comparada com as recomendações habituais de manter o penso seco durante 48 horas.

Artigo original: J Am Acad Dermatol

Por Luís Pimenta, USF CelaSaúde

 

 

 

A não perder
Menu