Concussão pediátrica sem impacto sustentado no QI

 

 

Pergunta clínica: Será que a concussão em crianças afeta o desenvolvimento da inteligência na fase pós-aguda?

Contexto: A concussão, isto é, o traumatismo crânio-encefálico ligeiro, em idade pediátrica, é altamente prevalente. Em contraste com o comprometimento intelectual precoce e persistente após traumatismo crânio-encefálico moderado a grave em crianças, o efeito da concussão no QI (quociente de inteligência) ainda não é claro. Este estudo pretende abordar a lacuna de conhecimento existente e avaliar o impacto de uma concussão em idade pediátrica no QI a longo prazo.

Desenho do estudo: Foram conduzidos dois estudos de coorte prospetivos multicêntricos e, das 1282 crianças recrutadas, a análise incluiu 866 crianças, com idades compreendidas entre os 8 e os 16,99 anos. As crianças participantes foram recrutadas nos serviços de urgência de hospitais pediátricos, dois nos Estados Unidos da América e cinco no Canadá, nas 48 horas após sofrerem uma concussão ou uma lesão ortopédica. Foram aplicados testes de avaliação do QI e testes de validade do desempenho após o período agudo, entre 3 dias e 3 meses. As diferenças entre os grupos nas pontuações de QI foram examinadas através de três abordagens estatísticas complementares, modelação linear, análise bayesiana e análise fatorial multigrupo, em crianças com desempenho acima dos limites estabelecidos nos testes de validade do desempenho.

Resultados: Os modelos lineares mostraram pequenas diferenças entre os grupos no QI total [d, intervalo de confiança de 95%: 0,13 (0,00-0,26)] e no raciocínio matricial [0,16 (0,03-0,30)], mas não nas pontuações de vocabulário. As pontuações de QI não se relacionaram com concussões anteriores, características clínicas agudas, mecanismo da lesão, score clínico de risco validado, classificações de sintomas antes ou depois da lesão, litígios ou presença de sintomas um mês após a lesão. Os modelos bayesianos forneceram evidência moderada a muito forte a favor da semelhança entre os grupos nas pontuações de QI, com fatores de Bayes entre 0,02 e 0,23. A análise fatorial multigrupo também demonstrou escassas variações nas medidas, indicando equivalência entre os grupos na estrutura fatorial do teste de QI e nas médias das variáveis latentes.

Comentário: Estes dois estudos de coorte prospetivos multicêntricos, que recorreram a três abordagens estatísticas complementares, não identificaram diferenças clinicamente relevantes e sustentadas nas pontuações de QI entre crianças com concussão e crianças com lesão ortopédica. Embora tenham sido observadas pequenas diferenças iniciais, estas não se mantiveram ao longo do tempo. Globalmente, os resultados fornecem evidência robusta de que uma concussão pediátrica não parece estar associada a uma diminuição sustentada do QI nas semanas e meses seguintes à lesão. E esta é uma mensagem tranquilizadora que podemos transmitir aos pais: a inteligência, avaliada através destas medidas de QI, não parece ser afetada de forma sustentada pelo traumatismo crânio-encefálico ligeiro.

Artigo original: Pediatrics

Por Clarisse Calça Coelho

 

 

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