Aparece – Saúde jovem: Muito para além da consulta

 

 

Há estágios que acrescentam conhecimento. Outros mudam a forma como olhamos para a nossa profissão.

A adolescência e o início da idade adulta são períodos decisivos do ciclo de vida. É nesta fase que se constroem hábitos, relações e projetos, mas também quando surgem muitas das primeiras manifestações de sofrimento psicológico, dúvidas relacionadas com a sexualidade e comportamentos que podem influenciar a saúde ao longo de décadas. Apesar disso, os jovens continuam a encontrar barreiras no acesso aos cuidados de saúde, muitas vezes por receio de serem julgados, pela dificuldade em encontrar um espaço verdadeiramente seu ou pela falta de tempo que caracteriza tantas consultas.

Foi neste contexto que realizei um estágio formativo na consulta do Aparece – Saúde Jovem, no Centro de Saúde de Sete Rios, integrado na ULS Santa Maria. Acompanhei jovens de diferentes origens, contextos familiares e percursos de vida. Entre os motivos de consulta destacavam-se problemas de saúde mental, questões relacionadas com a sexualidade e contraceção, alterações do sono e diversas queixas físicas, nomeadamente do foro músculo-esquelético. Estes dados, embora provenientes de uma pequena amostra e sem qualquer pretensão de representatividade, espelham desafios amplamente reconhecidos. Sabemos que cerca de metade das perturbações mentais têm início antes dos 18 anos e que esta continua a ser uma fase particularmente vulnerável para comportamentos de risco e problemas de saúde sexual.

 

Por vezes, prevenir é simplesmente criar um espaço onde um jovem encontra, talvez pela primeira vez, alguém disposto a escutar.

 

Contudo, aquilo que mais me marcou não foram os motivos registados no processo clínico, mas as histórias que surgiam depois, isto é, os motivos de consulta não expressos pelos jovens. Em muitas consultas, o verdadeiro problema apenas aparecia quando existia tempo, confiança e disponibilidade para ouvir. Percebi rapidamente que os jovens não procuram apenas respostas clínicas; procuram um espaço onde possam falar sem receio de serem julgados. Foi talvez esta a maior aprendizagem desta formação. Nas consultas do Aparece, a confidencialidade, a acessibilidade e uma comunicação adaptada à idade não são apenas princípios organizativos; fazem parte da própria intervenção terapêutica. Antes de qualquer prescrição, constrói-se uma relação. E é frequentemente essa relação que permite identificar precocemente situações de sofrimento psicológico, violência, isolamento, vulnerabilidade social bem como dificuldades económicas, abandono escolar entre outros.

Enquanto Médico Interno de Medicina Geral e Familiar, esta experiência levou-me também a refletir sobre o verdadeiro significado da prevenção. Nem sempre prevenir significa prescrever medicação, pedir um exame complementar de diagnóstico, administrar uma vacina ou aconselhar hábitos de vida saudáveis. Por vezes, prevenir é simplesmente criar um espaço onde um jovem encontra, talvez pela primeira vez, alguém disposto a escutar. Muitas vezes, a intervenção mais impactante consiste em oferecer um espaço seguro onde o jovem possa falar sobre ansiedade, conflitos familiares, dúvidas relativamente à sexualidade, dificuldades na escola ou relações afetivas. Problemas que, se forem identificados precocemente, podem evitar sofrimento significativo e reduzir a necessidade de intervenções mais complexas no futuro.

Num Serviço Nacional de Saúde cada vez mais pressionado pelas necessidades do presente, é fácil esquecer que algumas das intervenções com maior impacto acontecem muito antes da doença se instalar. Cada conversa que permite reconhecer precocemente problemas e fortalecer a confiança dos jovens nos profissionais de saúde constitui um investimento com benefícios que se prolongam muito para além daquela consulta.

 

Encontrei tempo. Encontrei disponibilidade. Encontrei uma linguagem adaptada, respeito pela confidencialidade e uma preocupação constante em construir confiança antes de procurar respostas.

 

De realçar, que no Aparece não encontrei apenas profissionais competentes. Encontrei tempo. Encontrei disponibilidade. Encontrei uma linguagem adaptada, respeito pela confidencialidade e uma preocupação constante em construir confiança antes de procurar respostas. Num tempo em que tantas consultas decorrem contra o relógio, impressionou-me perceber que, por vezes, os primeiros minutos de silêncio ou de conversa aparentemente informal eram os mais terapêuticos de toda a consulta.

Terminei este estágio com uma convicção simples: cuidar de jovens não é cuidar de adultos em miniatura. É reconhecer que têm necessidades próprias, formas próprias de comunicar e desafios próprios. Sobretudo, é compreender que, antes de qualquer diagnóstico ou tratamento, existe uma relação que precisa de ser construída.

O maior impacto de um espaço como o Aparece não está nas doenças que trata, mas nas doenças que ajuda a evitar. Porque promover saúde na adolescência é investir em adultos mais saudáveis, mais autónomos e mais capazes de cuidar da sua própria saúde.

Porque, no final, talvez a consulta mais importante não seja aquela em que resolvemos um problema. É aquela em que um jovem sai a acreditar que encontrou um lugar onde vale a pena voltar.

Por Miguel Bhatt Ambaram, USF Alvalade, ULS Santa Maria

 

 

 

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