Aborto induzido e o risco de sensibilização ao Rh

 

 

Pergunta do estudo: A administração da imunoglobulina Rh é necessária como tratamento para utentes que tenham um aborto induzido no primeiro trimestre?

Desenho do estudo: Estudo coorte prospetivo, multicêntrico, observacional. Utilização de citometria de fluxo para realizar contagem de eritrócitos com hemoglobina fetal (EHbF) antes e depois de interrupção médica da gravidez medicamentosa ou cirúrgica antes das 12 semanas e 0 dias de gestação. Dados incluídos no estudo foram tipo sanguíneo e tipagem Rh, dados demográficos, história ginecológica e obstétrica e história de hemorragia durante a gravidez. Foram incluídos neste estudo utentes a realizar interrupção médica da gravidez medicamentosa ou cirúrgica, com idade gestacional abaixo das 12 semanas e 0 dias e excluídas utentes com antecedentes de anemia falciforme, beta-talassemia, persistência hereditária de hemoglobina fetal ou outras hemoglobinopatias assim como utentes com impossibilidade de participar em follow-up.
O outcome principal do estudo era o número de utentes com contagem de EHbF acima do limite predeterminado de sensibilização Rh . Os investigadores identificaram 644 utentes que consentiram em realizar o estudo. No final, tiveram acesso a dados pré e pós- interrupção médica da gravidez de 506 utentes (78.9%).

Resultados: Dos 506 participantes, 3 tinham contagem EHbF elevada na amostra pré-interrupção médica da gravidez e 1 utente tinha contagem EHbF aumentada pós-interrupção médica da gravidez. Mais nenhum participante tinha contagem EHbF acima do limite de sensibilização clinicamente significativo após interrupção médica da gravidez ou cirúrgica antes das 12s e 0d de gestação. Não existiram diferenças significativas na contagem EHbF entre interrupção da gravidez medicamentosa ou cirúrgica, nem entre participantes com história de hemorragia na gravidez e participantes sem hemorragia na gravidez.

Comentário: Este estudo conclui que a interrupção médica da gravidez no primeiro trimestre, quer medicamentosa quer cirúrgica, não é um fator de risco para a sensibilização Rh. Este assunto é controverso entre as diferentes sociedades de obstetrícia, sendo a principal recomendação a de administração de Imunoglobulina anti-D após interrupção médica da gravidez cirúrgica, independentemente da idade gestacional. O estudo coloca também a questão económica da administração da imunoglobulina nestes casos, sendo o local do estudo os Estados Unidos da América onde o acesso ao aborto tem vários entraves políticos, sociais e económicos. Apesar do resultado apresentado neste estudo, é essencial considerar a ocorrência de um pequeno número de casos de sensibilização Rh prévia às 12 semanas de gestação. Mais estudos, com uma amostra maior devem ser realizados para se chegar conclusões mais definitivas.

Artigo original: JAMA

Por Inês Saura, UCSP Lousã

 

 

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