Quando o Carlos Martins me desafiou para comentar doislivros marcantes do meu percurso, logo o pensamento se fixou em duasobras que, por razões diferentes, não deveriam estar limitadas aoestatuto de “livros”. São belíssimos exemplos de bibliotecas: uma desentires e visões do Mundo de um português de alma inteira, outra damulticulturalidade e dos universos de crenças que nos perpassam os diasde especialistas em Pessoas que, como Médicos de Família, devemos manterpermeáveis ao conhecimento da diferença como veículo facilitador dacomunicação com o paciente.

Outras leituras: “DIÁRIO” por Miguel Torga. Coimbra Editora, 1932-1993 Volumes I a XVI
“Coimbra, 9 de Novembro de 1938- Ponho-me a pensar nomomento que seja a síntese deste dia. Se aquele em que entrei pelosolhos dentro dum pequenito com o amigdalótomo na mão, se aquele em que avelha da hemorragia cerebral murmurou que não podia virar os olhos paraa direita. E acabo por concluir que não foi nenhum desses. Que foiaquele em que dei um beijo gratuito numa criancita desconhecida quepassou pelo consultório a acompanhar a mãe.”
Pela dimensão que assume, pela temporalidade que a marca epelo conteúdo literário, sociológico e afectivo que a preenche, estaobra oferece-nos o mais puro sumo de 60 anos de século XX Português.Torga empresta-nos os seus olhos de Poeta, deleitando-nos com asimplicidade das coisas naturais e belas, ou contagiando-nos com as suasangústias de mente crítica, às vezes áspera e inconformada na leiturado real e do socialmente aceitável.
Habituei-me cedo a ler estes escritos de um homemorgulhosamente humilde e inteiro, que ia lançando ao longo das suasprosas sentenças pesadas como as fragas do Marão de que se dizia feito,entremeadas de dizeres voláteis auto-explicativos: da cor de uma árvoreflorida, do pulsar da liberdade ou da falta dela, ou do abstinentesentido do divino do agnóstico que em si descrevia. Todos eles aocompasso certo de datas em que eu ainda não nascera, mas de muitoslugares que tão bem conhecia por povoarem o mapa familiar da minhainfância e adolescência. E que contente fiquei quando uma Prova Geral deAcesso ao Ensino Superior surdiu com um extrato deste Diário, já entãobem conhecido por vir procedendo a uma aquisição lenta (a que se seguiainvariavelmente uma leitura rápida) dos seus tomos, com as sobras dosmeus “alfinetes”, ano a ano, na Feira do Livro do Porto…
São os livros a que regresso, quase sempre, quando precisode um toque de poesia, em prosa ou em verso, a ilustrar uma data, umafecto, uma alegria. Ou de um cheiro de serra ou de mar a clarear umpesado fim de dia. E onde encontrei, mais tarde, leituras diferentes deestórias de um Médico e de Pessoas, daquelas que têm, além de doenças,corpo e espírito, percursos específicos e vidas próprias, como as quetodos os dias gosto de ter comigo.

Leitura médica: “Culture, Health and Illness” por Cecil G. Helman, A Hodder Arnold Publication, 2007
Foi no primeiro ano de Internato Complementar de Medicina Familiar que conheci este livro.
No momento em que aprendemos a pensar clinicamente de formaalternativa à que nos foi incutida durante a formação pré-graduada, estaobra- que aborda várias áreas da Antropologia Médica- trouxe-me apreciosa noção de que, em Medicina, dois mais dois às vezes são iguais atrês ponto sete, e em alguns dias a quatro vírgula dois… sobretudonas contas de quem nos procura, carregado previamente da suacircunstância, preocupações, valores e medos.
Variáveis de descrição muito difícil, que podem influir deforma poderosa no estado de saúde dos indivíduos, nos seuscomportamentos de gestão da saúde e da doença, e que, se não foram pornós percebidas em toda a sua extensão, constituir-se-ão como elementosconfundidores dos resultados que o nosso convencional exercício daMedicina espera obter num paciente ideal, imaginado num ambientetotalmente asséptico em relação às suas dimensões culturais evivenciais, e à aprendizagem que efectuou ao longo do seudesenvolvimento individual numa sociedade específica.
Contas que a Faculdade não nos ensina, mas que o exercícioclínico na comunidade nos obriga a dominar em toda a sua complexidade.Este é um bom ponto de partida para as conhecer e aceitar.
