Ana Sardinha

Leitura médica: “O Médico, o seu Doente e a Doença” de Michael BalintClimepsi, 1998

Há muitos anos atrás, quando iniciava funções como ClínicaGeral sem fazer a mais pequena ideia do que era ser Médica de Família,tendo apenas uma forte convicção de que o que eu queria mesmo era sermédica das pessoas, trouxeram até mim um livro médico que de imediatoficou na minha memória como algo de muito especial – O MÉDICO, O SEUDOENTE E A DOENÇA- de MICHAEL BALINT. Já li a sua tradução em portuguêscom uma introdução efectuada por um colega que à data desconhecia e queigualmente me encantou; atentem nas suas palavras:

“..a perda quase completa dessa dimensão humanainter-relacional, coisificada num numero de cama de um hospital, ou numqualquer diagnóstico, onde predomina o anonimato do doente perante oimenso aparelho tecnológico da medicina actual, é uma das principaisfontes de manutenção do sofrimento destes…”

À medida que “avança”o conhecimento cientifico, astecnologias “de ponta” e quanto mais me dedico à Medicina Geral eFamiliar, mais me apetece ler e reler este livro, cuja permanenteactualidade é impressionante.

De tal maneira me “ tocou” e “toca”, que os meus internossabem ser sempre a minha primeira recomendação, muito antes de começarema estudar os problemas de saúde… para que aprendam também a efectuar “trabalhos” baseados em emoções!

Ser “Médico” em vez de ser “Doutor”, saber dosear aintervenção/intromissão, aprender a escutar, ser médico como “medicamento”, lidar de forma adequada com as nossas emoções e as dosoutros, e fortalecer a relação médico-doente são as “ dicas “que vosdeixo, para que não adiem a leitura absorvente mas tranquila deste “Tratado”!

Até hoje continuo agradecida ao colega que me levou à sua descoberta…

 

 

Outras leituras: “Os Olhos do Homem que Chorava no Rio” de Ana Paula Tavares e Manuel Jorge MarmeloEditorial Caminho, 2005

É um livro da autoria de ANA PAULA TAVARES e de MANUEL JORGEMARMELO- OS OLHOS DO HOMEM QUE CHORAVA NO RIO, edições Caminho, semdúvida o livro que mais me “tocou” do muito que li até hoje, e gostariade o partilhar convosco, abrindo novos horizontes de leitura…

Leitura que embala em sonhos que podem preencher a vida, fazapreciar e valorizar coisas simples que existem no quotidiano e quetantas vezes passam despercebidas, e permite perceber que se pode amarsem palavras…

“ a menina anda na terra como se andasse naságuas…nas águas do Douro …tem um “ vulto” protector com quem nãofala mas ….sente-o ela e guarda-a ele…a menina antes de dormir,gosta de imaginar o mundo como um sítio onde as pessoas fossemsubstituídas por pequenas luzes de todas as cores…”

Deixar que as emoções se soltem, chorando e sorrindo, esentir que existe alguém que nos protege… é interiorizado na leituradeste pequeno- grande livro.

“…e o tipografo chora…segue…procura…nas maciezas das margens…a noite avança e o livro não se esgota”.

“…pressente que alguém espreita e lê por cima do seuombro, mas sabe que o que ali está é um sorriso. Não olha para trássequer, tão segura está da bondade que encontrará nos olhos de quemespreita…”.

“O tipografo chora em sossego, as lágrimas que verte são felizes, leves, rasto de um explosão de coisas boas…”

“…lenta como a noite, a menina espera a história abreos olhos respira mansa sobre a superfície do rio…é como escolher entrea nascente e a foz quando se quer estar na melhor no melhor sitio dorio- qual a ponta do rio que melhor enche os sentidos?”

São duplas muito felizes (autores e personagens), e fazemcom que a poesia se alie à prosa num complemento que torna a leituraquase musical!

Não percam…e deixem-se levar pelas emoções…e por esterio- O DOURO- que como diz MIGUEL TORGA, é no mapa da pequenez que noscoube a única evidência incomensurável com que podemos assombrar omundo!

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