Por Célia Oliva, USF Além D´Ouro
Pergunta clínica: qual a melhor forma de seguimento das mulheres submetidas a tratamento de neoplasia cervical intra-epitelial (CIN)?
Desenhos dos estudos: No 1º artigo, é descrito um estudo de coorte usando um registo oncológico nacional holandês que incluiu 38 956 mulheres com CIN 1,2 e 3 que completaram o follow up após tratamento.Foi comparado o risco de recidiva das mulheres que voltaram ao programa de vigilância oncológica com as mulheres com resultados de citologia cervico-vaginal (CCV) normal primariamente.
No 2º artigo, os investigadores desenvolveram uma análise custo-efetividade, com base num modelo matemático do tipo Markov que permitiu comparar 3 estratégias diferentes de follow up após tratamento de CIN:
– Follow up apenas com recurso à CCV durante 10 anos (CIN 2/3) e aos 6, 12 e 24 meses (CIN1);
– Protocolo alternativo com adição do teste do HPV: se CCV e teste do HPV negativosaos 6 meses,as mulheres regressavam ao rastreio de rotina;
– Protocolo alargado com teste do HPV: na CIN1 o follow up após tratamento incluiu CCV e teste do HPV aos 6 e 12 meses e CCV isolada aos 24 meses – se ambos negativos nas 3 vigilâncias as mulheres retornam ao esquema de rotina. Se CIN2/3 seguem protocolo com CCV anual durante 10 anos, após os quais seguem o mesmo follow up do CIN1.
Tiveram como suporte o National Health Service Cervical Screening Programme – The Sentinel Site Study (programa-piloto inglês de rastreio do cancro do colo do útero).
Resultados: No 1º artigo os investigadores concluíram que as mulheres que fizeram tratamento por CIN graus 1-3 e que completaram o follow up com CCV isoladamente (aos 6, 12 e 24 meses) mantiveram risco 4 vezes superior de cancro cervical relativamente às mulheres com citologias primárias normais.
No 2º estudo, a abordagem na qual as mulheres eram submetidas a CCV e teste do HPV aos 6 meses (regressando ao esquema de rotina se este negativo) mostrou-se ser mais custo-efetiva, prevenindo mais casos de CIN3 comparativamente com a CCV isolada anual durante 10 anos.
Conclusão: Tendo por base os 2 estudos citados, editores do BMJ concluem que a monitorização a curto prazo de mulheres submetidas a tratamento de CIN, com teste HPV e CCV aos 6 e 24 meses, revelou-se suficiente para detectar com segurança doença cervical pós-tratamento.
Comentário: O carcinoma do colo do útero representa 6% dos tumores malignos ginecológicos, sendo o 2º tipo de cancro mais frequente entre as mulheres. É da responsabilidade do médico de família o correto seguimento não só das mulheres saudáveis como daquelas que já foram submetidas a tratamentos (risco de recorrência superior).
Numa época de contenção de custos a análise custo-efetividade tem particular pertinência, auxiliando no processo de tomada de decisão. Neste ponto, o teste do HPV mostrou ser mais eficaz na deteção precoce das mulheres que estão em risco de desenvolver doença recorrente, aumentando concomitantemente a adesão à vigilância, através da redução do número de visitas. Resta-nos aguardar a implementação deste modo de vigilância em Portugal, no qual infelizmente ainda não é possível fazer citologias em meio líquido em muitas unidades de saúde.
