Em Medicina, dispomos dos princípios orientadores da Medicina Baseada na Evidência que nos ajudam a tomar decisões e a encontrar soluções para os nossos pacientes que lhes trarão provavelmente mais benefício do que dano. Orientamo-nos pelo método científico e por factos baseados em ciência, para além de incorporarmos também a incerteza, a subjetividade e os valores e preferências da pessoa de quem estamos a cuidar.
Será possível replicar alguma desta metodologia científica para o processo de decisão política, para a conversa e diálogo político?! Para a decisão que cada um de nós faz no momento de votar?!
O nosso instinto é dizer que não. Todos reconhecemos que, com muita frequência, na política há um lado irracional devido a outros fatores. Com frequência, há pessoas que vestem a camisola de um determinado partido e isso leva-os a defender políticas sem sustentação em factos. Ou, no extremo, também é por isso que muitas pessoas são indiferentes à mentira e às fake news que muitos políticos usam como estratégia. Contudo, este vestir de camisola não baseado em ciência ou em factos pode, tal como na Medicina, conduzir a mais dano do que benefício.
Para quem ama a causa democracia e a causa da liberdade, existe, no presente, motivo para grande preocupação. Estamos perante uma ameaça muito real à democracia. Refiro-me ao populismo. E existem já muitos dados, estudos e muita ciência que nos mostra como o populismo, quer de direita quer de esquerda, constitui uma ameaça para a democracia e para o Estado de Direito.
Como poderemos replicar a metodologia de decisão em Medicina e usá-la no processo de decisão política?
Fazendo como nos ensinam na Medicina Baseada na Evidência. De acordo com a prática da Medicina Baseada na Evidência, o primeiro passo da procura de evidência científica consiste na construção da pergunta clínica, o PICO (P de população, I de intervenção, C de comparação, e O de Outcome. A estrutura PICO é uma forma de colocar perguntas que nos pode orientar noutro tipo de estudos e até noutras situações. Por exemplo, uma das causas de maior insatisfação na nossa sociedade no presente são os baixos salários. Professores, agentes de autoridade, trabalhadores no geral e também a nossa classe médica. Todos têm pedido aumento de salários. Então, se um dos outcomes que gostaríamos de ver concretizado pelo próximo governo é aumentar os salários, e pensando que para aumentar salários é necessário criar riqueza, ou seja, crescimento económico, então uma das perguntas que podemos colocar é: Qual das estratégias de política económica é mais eficaz na criação sustentada de riqueza? Ou, então, qual é mais eficaz a promover sustentadamente o crescimento económico?
Próximo passo: procurar estudos que tenham analisado essa questão. E até nem são difíceis de encontrar. E ainda podemos aperfeiçoar a nossa pergunta. Tal como na Medicina Baseada na Evidência, nos outcomes interessa-nos avaliar o efeito positivo do tratamento, mas também os potenciais efeitos adversos, os potenciais danos. Então a nossa pergunta poderia passar a ser:
Qual das estratégias de política económica é mais eficaz na criação sustentada de riqueza, sem o aprofundar de desigualdades, sem o aprofundar das assimetrias entre os mais ricos e os mais pobres, ou seja, que permita ao mesmo tempo a eliminação da pobreza?
Vale a pena pensar sob esta perspetiva. Até porque algumas das propostas dos nossos partidos não vão neste sentido. Algumas até têm o potencial de gerar mais pobreza a longo prazo. Basta olhar para os dados de vários países com modelos de política económica diferentes e comparar os respetivos resultados. O exemplo desta pergunta para a área económica pode ser replicado para outras áreas, para a saúde, para a justiça, para a educação. E se procurarmos evidência, dados, factos, isso pode realmente ajudar-nos a tomar decisões sobre o nosso voto de uma forma mais informada e sólida.
É óbvio que a concretização das políticas também depende dos políticos que as vão executar. Ora, pode parecer difícil que a evidência, os factos ou ciência nos possa auxiliar nessa vertente do nosso processo de decisão. Mas, será que é mesmo assim? Já alguma vez se questionou sobre o que leva tantas pessoas a votar em políticos mentirosos, em políticos desonestos, em políticos demagogos. E não estou a referir-me apenas a Portugal. Existem múltiplos exemplos por esse mundo fora. A este respeito, para quem ama a causa democracia e a causa da liberdade, existe, no presente, motivo para grande preocupação. Estamos perante uma ameaça muito real à democracia. Refiro-me ao populismo. E também aqui existem já muitos dados, estudos e muita ciência que nos mostra como o populismo, quer de direita quer de esquerda, constitui uma ameaça para a democracia e para o Estado de Direito. Dispomos de estudos que nos ajudam, por um lado, a compreender a profundidade desta ameaça, o quão grave esta ameaça pode ser para os nossos direitos fundamentais para as nossas liberdades, para o nosso bem-estar. E, por outro lado, também já dispomos de estudos sobre como responder, como dialogar com os populistas, e como defender as nossas democracias.
Sugiro que leiam estes livros e vejam esta TED Talk, pois ajudam a compreender o populismo e o risco que representa.
A respeito de decisões políticas baseada em ciência e factos, o livro “As Causas do Atraso Português” é rico em ciência e factos e pode-nos ajudar no nosso processo de decisão.
Boas leituras, boa evidência, boas decisões!
Por Carlos Martins
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