Mónica Costeira, é uma médica Pediatra que trabalha no Centro Hospitalar do Baixo Vouga, Aveiro. Já colaborou em várias missões da Médicos Sem Fronteiras e acaba de lançar um livro com o título ” Se tu vivesses o que eu vi”.
Mónica, o que te levou a exercer Medicina em países como o Sudão do Sul ou Iémen?
Sempre me senti uma cidadã do mundo e queria exercer pediatria onde há mais crianças e menos recursos, nomeadamente menos pediatras e, portanto, onde o meu trabalho teria mais impacto.

Podes partilhar com os nossos leitores por que países passaste e quando?
Quando terminei a faculdade de medicina em Coimbra fiz um curto voluntariado na Guiné-Bissau com uma ONGD. Foi o meu primeiro contacto com outra realidade e percebi logo ali que queria estar em lugares onde houvesse mais necessidades e menos recursos. Assim, quando terminei a especialidade de pediatria, em 2019, fiz voluntariado em vários campos de refugiados na Grécia. Em 2020 estive durante seis meses na cidade de Malakal, no Sudão do Sul, com a Médicos Sem Fronteiras, onde trabalhei em dois hospitais com enfermarias de pediatria, neonatologia, desnutrição e também assumi o cargo de responsável de violência sexual e de género. Em 2021 estive seis meses na cidade de Al-Qanawis, no Iémen, a trabalhar numa maternidade e serviço de neonatologia com a Médicos Sem Fronteiras. Em 2022 estive dois meses em Timor-Leste onde desenvolvi atividades de Educação para a Saúde e Inteligência Emocional para crianças e adolescentes. Mais recentemente, em 2023, estive quatro meses no Afeganistão com a Médicos Sem Fronteiras a apoiar o serviço de neonatologia e pediatria do Hospital Regional de Mazar-i-Sharif.
É frustrante e angustiante compreender que uma evolução socioeconómica justa que permita que todos possamos ter os mesmos direitos de equidade, justiça e liberdade é uma maratona, quando a minha vontade é de que fosse um sprint.
Em termos de adaptação à realidade desses países, o que foi mais difícil para ti?
Sem dúvida, a aceitação daquilo que não posso mudar. Quando viajamos para países com níveis socioeconómicos mais baixos é uma viagem no tempo. Constatamos uma elevada taxa de natalidade e mortalidade infantil; uma acentuada discriminação da mulher, casamento infantil, trabalho infantil, mutilação genital, tráfico humano e de órgãos, entre outros. É muito perturbador assistir a esta realidade e perceber que a minha ação apenas minimiza os danos, as consequências. Para haver verdadeira mudança de realidades é necessária estabilidade política, social, económica e ecológica. É frustrante e angustiante compreender que uma evolução socioeconómica justa que permita que todos possamos ter os mesmos direitos de equidade, justiça e liberdade é uma maratona, quando a minha vontade é de que fosse um sprint. Porém, sinto que esta frustração e revolta são a força motriz para não desistir nesta maratona.

Passaste por algum momento em que temeste pela tua segurança? Ou pela segurança (futura) dos teus pacientes?
A maior parte do tempo senti-me muito bem recebida, respeitada e amada pela população local. Os maiores momentos de insegurança que vivi remontam ao Iémen quando a cidade de Saná estava a ser bombardeada.
Ao regressar a Portugal, o que foi mais difícil para ti?
A diferença entre realidades e a injustiça que lhe está inerente é muito difícil de aceitar. É-me muito custoso entender porque é que tenho todos estes privilégios e outra mulher como eu, mas que nasceu em outro lugar do planeta apenas encontra obstáculos e dificuldades. A gratidão, a resiliência e a empatia são competências essenciais à nossa felicidade. Nestes locais, por vezes com tão pouco, as pessoas conseguem sentir gratidão no dia-a-dia; lutam diariamente e constroem a sua resiliência; o sofrimento está à vista de todos pelo que há um espírito comunitário muito forte, toda a gente se ajuda. Quando regresso a Portugal sinto que vivemos em piloto automático, ingratos e insatisfeitos com a vida que temos; a tentar escapar e fugir a qualquer desconforto, sem treinarmos a nossa resiliência; escondemos e camuflamos a nossa vulnerabilidade, o nosso sofrimento, sentindo solidão diariamente, sem entreajuda, pois não mostramos a nossa tristeza, não a desencarceramos. É frustrante perceber que aqui temos todas as condições para sobreviver, mas não sabemos viver. Por outro lado, nestes lugares, as pessoas estão a fazer os possíveis para sobreviver e vão vivendo com sabedoria cada dia que têm.

“Se Tu Vivesses o que Eu Vi” é o título do livro que acabas de publicar. O que achas que gerou essa necessidade de passar as coisas para um livro?
Sempre gostei de escrever. Escrever ajuda-me a processar as minhas vivências, a entender melhor aquilo que sinto, o que se passa ao meu redor e dentro de mim. Comecei a escrever histórias de doentes e familiares em contexto humanitário com esse intuito. Porém, quando partilhava os meus textos com amigos e familiares sentia que tornava as histórias destas pessoas reais. Sentia que através das minhas palavras podia transportar as pessoas para estas realidades para que possam sentir muito daquilo que eu senti e tenham vontade de lutar pela mudança, por um mundo mais justo. Dando a conhecer os personagens reais das minhas histórias pretendo criar empatia, que possa gerar entreajuda e compaixão.
A gratidão, a resiliência e a empatia são competências essenciais à nossa felicidade. Nestes locais, por vezes com tão pouco, as pessoas conseguem sentir gratidão no dia-a-dia; lutam diariamente e constroem a sua resiliência; o sofrimento está à vista de todos pelo que há um espírito comunitário muito forte, toda a gente se ajuda.
Destas tuas vivências, ao veres o que se passa atualmente em Portugal, o debate político sobre as políticas de saúde, as dificuldades de resposta do nosso Sistema de Saúde, há reflexões e pensamentos que queiras partilhar com os nossos colegas?
A saúde é um pilar essencial da sociedade, presenciei em primeira-mão como é crucial para o desenvolvimento e bem-estar de uma sociedade. Temos de garantir que a saúde é inclusiva, que está disponível para todas as pessoas. Indivíduos mais saudáveis podem contribuir para a sociedade com soluções inovadoras e criativas para os problemas que enfrentamos como Humanidade, por isso não podemos descurar da saúde.
Acredito no SNS, pois acredito que a saúde é um direito de todos. Porém, o SNS são os profissionais de saúde que lá trabalham e, neste momento, eles estão desgastados. O nosso SNS sofreu muito com a pandemia, os profissionais de saúde sofreram muito com a pandemia. Grande parte está em burnout ou fadiga compassiva. Não podemos querer resolver os problemas do SNS, melhorar a saúde dos portugueses, se não melhorarmos a saúde dos profissionais que lá trabalham.
Neste momento, pede-se aos profissionais de saúde que coloquem a “máscara de oxigénio” a todos, que salvem o SNS. Porém, ninguém lhes coloca uma “máscara de oxigénio”. Enfatizo que o SNS são os profissionais que lá trabalham e eles precisam que haja investimento na sua saúde mental e bem-estar para que depois possam cuidar dos outros.
Neste momento, acredito ser crucial pensar a longo prazo, temos de investir na saúde mental da população portuguesa, começando pela saúde mental dos profissionais de saúde. Temos de investir em educação para a saúde, temos de investir em medidas preventivas que façam reduzir custos a longo prazo. Temos de nos unir por melhores condições de trabalho, mais dignidade e respeito para com cada profissional de saúde.
Se as políticas do nosso país e as administrações hospitalares criarem um ambiente de apoio que dá prioridade ao bem-estar do pessoal, isto irá reduzir o esgotamento atual dos profissionais e melhorar os resultados dos cuidados prestados aos doentes.
Muito, muito obrigado, Mónica!

Entrevista conduzia por Carlos Martins
