
Numa consulta de uma qualquer unidade de saúde, uma mãe questiona, muito preocupada, sobre a sua legitimidade de a própria propor uma dieta vegetariana à sua filha de 6 anos. Após uma pausa, a mãe explica a sua preocupação e o seu modo exaltado de abordagem da questão. Numa consulta anterior, um profissional de saúde havia classificado como negligente a sua intensão de adoptar o vegetarianismo para a sua filha, tendo referido que poderia colocar em causa o saudável crescimento da criança.
Uma das mudanças comportamentais importantes na nossa espécie foi a transição para um padrão alimentar omnívoro na pré-História, tal como referiu o zoólogo Desmond Morris(1), com repercussões sociais e evolutivas. Por outro lado, pelo menos desde a Antiguidade Clássica que há referências a adopção e valorização de um padrão alimentar vegetariano, por autores como Platão, abrangendo este estilo de vida uma dimensão filosófica. Mais recentemente, Albert Einstein (1930) referiu identificar-se com o vegetarianismo, por razões morais, bem como pela crença que este estilo de vida iria beneficiar o futuro da humanidade(2). Nos últimos anos têm surgido documentários em defesa dos animais, que favorecem o vegetarianismo (“Sea the Truth” de 2010, realizado por Claudine Everaert e Gertjan Zwanikken). A Vegetarian Society (fundada em 1847, Reino Unido) argumenta que este tipo de alimentação: é saudável, reduz a pegada ecológica e é mais sustentável, favorece os direitos dos animais. No século XX deu-se um importante movimento no Porto a favor do vegetarianismo liderado por Ângelo Jorge, autor da obra Irmânia (1912), em que uma vez mais o vegetarianismo ultrapassaria a sua restrita concepção de padrão de alimentação. Ante esta realidade e conhecidas algumas das motivações para a adopção este padrão alimentar, é pertinente reflectir sobre os mitos e os factos no que se refere a este padrão de alimentação.
O conceito de dieta vegetaria (baseada em alimentos vegetais) é demasiado amplo, sendo pertinente compreender se inclui na dieta alguns alimentos de origem animal como ovo, o leite e seus derivados, ou o mel. O conhecimento das variantes do vegetarianismo (lacto-ovo-vegetariana, vegana, frutarianista, etc.) tem implicações práticas nas considerações a fazer sobre as implicações do estilo de vida, nomeadamente dos potenciais défices nutritivos.
A Direção-Geral da Saúde publicou em 2015 as Linhas de Orientação para uma Alimentação Vegetariana Saudável, em que alertava para os riscos de défice: vitamina B12, iodo, ácidos ómega 3. Uma dieta vegetariana criteriosa permite assegurar os níveis proteicos adequados, bem como de ferro e de zinco (note-se, todavia, que são absorvidos em menor proporção se tiverem origem vegetal). Nas dietas vegetarianas que não incluem a ingestão de leite nem de derivados a escolha de alimentos deverá ser mais cuidada, tendo em vista o aporte adequado de cálcio. Suplementos alimentares, ou alimentos fortificados (soja, quinoa, amaranto, etc.), poderão facilmente equilibrar os potenciais défices. O risco de défice de vitamina D nos meses frios verifica-se neste padrão de alimentação tal como no padrão alimentar não-vegetariano.
O mesmo manual da Direção-Geral da Saúde menciona ainda ao potencial benefício deste tipo de dieta na prevenção primária nos factores de risco e na doença e cardiovascular, assim como na oncológica. Acrescentando que, quando bem planeada (incluindo, mediante o tipo de dieta em concreto, alimentos fortificados e/ou suplementos alimentares), esta pode ser adequada a todas as fases do ciclo de vida, incluindo a infância, a adolescência, a gravidez, a lactação, os idosos, bem como os desportistas.
Considerando novamente a referida consulta, estaria a mãe, ante a actual evidência científica, ilibada do crime de negligência? Certamente que faltariam muitos mais dados para uma adequada resposta, e juízos de moral ou julgamentos não são da competência médica. Ocorreu neste caso, com grande probabilidade, um erro de comunicação. De facto, a dieta vegetariana pode predispor a alguns importantes défices nutricionais, que, no entanto, podem ser equilibrados com um planeamento adequado da dieta, ou com a prescrição de suplementos alimentares. Uma refeição vegetariana não é uma “refeição tradicional” sem carne, talvez o possa ser em alguns locais por desconhecimento, não obstante esta pressupõe uma alternativa nutricionalmente completa e saborosa. Importa ainda relevar que este padrão alimentar pode ter implicações mais amplas (estilos de vida e crenças), pelo que evocar ideias preconcebidas e genéricas de vegetarianismo pode ser um foco adicional de desentendimento.
O documento da Direção-Geral da Saúde anteriormente referido alude para o aumento da frequência de adopção deste padrão alimentar. Independentemente desta realidade ser uma opção, uma moda, ou a evolução da espécie, cabe aos profissionais de saúde actualizarem o seu saber neste domínio, de modo a que se potencie a comunicação e a relação terapêutica com utentes vegetarianos, bem como prevaleça a promoção da saúde. Talvez, ao conhecimento teórico, pudesse ser interessante o conhecimento prático, com a degustação de algumas iguarias disponíveis, em restaurantes genéricos, ou orientados para o vegetarianismo.
1. Morris D, O macaco nu, Publicações Europa-América, 3ª Edição 2007 (primeira publicação 1967)
2. Albert Einstein (1878-1955), carta a Harmann Huth, 27 de Dezembro de 1930 (in Alice Calaprice (ed.), “The New Quotable Einstein”, Princeton, 2005, p. 281
Por Carlos Franclim, médico, USF S. João Porto
