Enquadramento: Os antidepressivos, particularmente os inibidores seletivos da recaptação da serotonina, são amplamente prescritos e podem aumentar o risco de hemorragia, possivelmente devido à sua inibição da ativação plaquetária durante a hemostase, e especialmente quando co-prescritos com anticoagulantes orais.
Pergunta clínica: Os pacientes a fazer concomitantemente anticoagulantes orais e inibidores seletivos da recaptação da serotonina têm um risco aumentado de hemorragia major quando comparados com o uso isolado de anticoagulantes orais?
Desenho do estudo: Estudo caso-controlo. Foram analisados dados de cerca de 2000 clínicas do Reino Unido para identificar pacientes (N = 331.305), com 18 ou mais anos, diagnosticados com fibrilhação auricular e medicados com um anticoagulante oral (apixabano, dabigatrano, edoxabano, rivaroxabano ou varfarina) entre janeiro de 1998 e março de 2021. Todos os pacientes foram seguidos até ocorrer a primeira hemorragia major, morte, fim do registo ou fim do período de estudo, consoante o que ocorresse primeiro. O grupo de casos incluiu pacientes com um primeiro diagnóstico registado de hemorragia major que necessitasse de hospitalização ou que fosse causa de morte. O grupo de controlos incluiu pacientes semelhantes, sem hemorragia major, com o mesmo tempo de seguimento. A exposição ao risco correspondeu à prescrição concomitante de inibidores seletivos da recaptação da serotonina e anticoagulantes orais. Foi realizada uma análise estatística ajustada para várias comorbilidades.
Resultados: Após um período de follow-up médio de 4,6 anos, ocorreu hemorragia major com necessidade de hospitalização em 42.391 pacientes, uma taxa de incidência de 27,9 eventos por 1000 pessoas-ano. O uso concomitante de inibidores seletivos da recaptação da serotonina e anticoagulantes orais foi associado a um risco significativamente aumentado de hemorragia major em comparação com o uso isolado de anticoagulantes orais (incidence rate ratio 1,33; IC 95% 1,24 – 1,42). O risco foi maior durante os primeiros 30 dias (IRR 1,74; ). O uso concomitante de inibidores seletivos da recaptação da serotonina resultou num aumento do risco de hemorragia major tanto com anticoagulantes orais diretos (IRR 1,25; 1,12 – 1,40) quanto com antagonistas da vitamina K (IRR 1,36; 1,25 – 1,47), em comparação com apenas anticoagulantes orais. O risco não foi afetado pela idade, sexo, história prévia de hemorragia major, doença renal crónica ou o tipo e potência do inibidor seletivo da recaptação da serotonina.
Comentário: Este grande estudo demonstrou que o uso concomitante de inibidores seletivos da recaptação da serotonina e anticoagulantes orais aumentou significativamente o risco de um episódio de hemorragia major em comparação com o uso de anticoagulantes orais isoladamente, com um maior risco nos primeiros 30 dias. O risco ocorreu tanto com anticoagulantes orais diretos quanto com antagonistas da vitamina K. Dado este aparente risco hemorrágico aditivo, esta interação medicamentosa é classificada como tipo C, em que habitualmente os benefícios desta associação superam os riscos. É importante mantermos uma monitorização apertada dos sinais e sintomas de hemorragia se os combinarmos, principalmente no primeiro mês de tratamento.
Artigo original: JAMA Netw Open
Por Jorge Talhada de Moura, USF Porto Centro
