
Existe algo chamado “horas de felicidade”: quando um profissional faz algo de destaque, o responsável pode oferecer-lhe três horas livres, que pode usar como quiser.
Como surgiu a ideia de fazer um estágio de Medicina Geral e Familiar no Dubai? E porquê o Dubai?
A ideia de realizar um estágio internacional surgiu logo no início do internato. Sempre soube que queria ter outra experiência multicultural, sobretudo porque a formação específica em Medicina Geral e Familiar segue o perfil clínico e profissional definido internacionalmente pela WONCA. Num mundo cada vez mais globalizado, é essencial que os médicos de família tenham uma visão ampla de diferentes realidades e consigam adaptar-se facilmente a qualquer cultura.
Depois de ter feito Erasmus em Paris, no último ano do curso de Medicina, pensei que deveria escolher um destino completamente diferente, noutro continente. Queria viver outra cultura e outra realidade económica, onde os conceitos do sistema de saúde pudessem enriquecer a minha atividade profissional.
Escolhi o Dubai porque, além de ser um dos destinos mais seguros do mundo para uma experiência “a solo”, possui uma riqueza multicultural única e recursos inigualáveis, marcados por contínuos avanços tecnológicos e inovação em todas as áreas, incluindo a saúde. Assim, os meus objetivos eram trocar experiências em gestão de cuidados de saúde, contactar com pessoas de diferentes culturas e as suas particularidades, sobretudo no que diz respeito ao exame físico e às abordagens terapêuticas, bem como discutir métodos de trabalho que melhor servissem os doentes. Para minha agradável surpresa, todos esses objetivos foram plenamente alcançados.
Qual era o nome da Unidade de Saúde onde realizou o estágio e como estava estruturada?
O estágio decorreu no Al Mankhool Health Center, pertencente ao Dubai Health Service (DHS), o sistema público de saúde. O edifício tem dois pisos e conta com 10 médicos especialistas em Medicina Geral e Familiar (pelo menos um deles faz exclusivamente teleconsultas), em coordenação com cerca de 30 enfermeiros (em turnos), 4 secretárias clínicas, 2 farmacêuticos e 2 seguranças por dia.
Há também especialistas em Saúde Materna, Saúde Infantil e Desenvolvimento que fazem consultas rotativas, um ou dois turnos por semana, para responder às necessidades dessas populações específicas. Embora na altura não houvesse internos de Medicina Geral e Familiar, o centro colabora na formação de estudantes da Mohammed Bin Rashid University of Medicine, através da qual me candidatei ao estágio.
O DHS possui 14 clínicas de Cuidados de Saúde Primários (PHC) em todo o Dubai, todas com um funcionamento semelhante. Não existem listas de utentes atribuídas a cada médico, nem equipas médico-enfermeiro fixas, embora esteja prevista a implementação desse modelo em breve. Cada médico atende os utentes do dia de forma aleatória. Contudo, enquanto estive lá, tinham começado a atribuir doentes a um único médico, começando pelos maiores de 60 anos e depois por faixas etárias descendentes.
O centro de saúde foi inaugurado em 1987, pelo que algumas áreas ainda estão divididas por género. Os centros mais recentes já não têm essa divisão, exceto em algumas salas de espera, o que também acontece neste. Dispõe de duas farmácias onde os doentes levantam toda a medicação prescrita no final da consulta, bem como um laboratório para colheita de amostras e quatro salas de espera. Tem ainda uma sala de urgência, duas salas de tratamentos, uma área pediátrica, uma área de radiologia com duas salas de ecografia e uma de raio-X, além de salas de oração.
Na área pediátrica trabalham médicos de família com formação avançada em saúde materna e infantil, que acompanham grávidas e crianças com suspeita de autismo ou défice de atenção e hiperatividade, em articulação com psicólogos e assistentes sociais. Após confirmação diagnóstica, os doentes são encaminhados para centros especializados para terapias complementares e seguimento. Esta área pediátrica inclui uma sala de amamentação, uma sala de vacinação, uma sala de leitura e cinco gabinetes médicos.

Os utentes desta Unidade eram maioritariamente cidadãos nativos dos Emirados Árabes Unidos ou imigrantes residentes no Dubai? De que países eram?
Os centros de saúde servem uma comunidade multicultural, onde menos de 10% são cidadãos nacionais, os Emiratis. A maioria é de nacionalidade indiana e paquistanesa, entre muitas outras em percentagens menores.
Em que língua decorriam as consultas?
Preferencialmente em árabe e inglês. Raramente encontrei um doente árabe que não falasse inglês. Esses casos eram essencialmente de pessoas idosas, mas estavam sempre acompanhadas por alguém bilingue, o que é cada vez mais comum no país.
Como está organizado o sistema de saúde no Dubai? É mais semelhante ao modelo beveridgiano ou ao modelo bismarckiano?
O sistema de saúde do Dubai é mais próximo do modelo bismarckiano, embora seja híbrido. O financiamento é feito através de seguros de saúde, obrigatórios para todos os residentes desde 2014 (as entidades empregadoras são responsáveis por assegurar o seguro dos seus trabalhadores). No entanto, os cidadãos Emiratis têm acesso gratuito ou subsidiado aos cuidados de saúde públicos.
O setor da saúde é regulado pelo Estado, através da Dubai Health Authority (DHA), que supervisiona os serviços públicos e privados, bem como as licenças, regulamentos clínicos e padrões médicos.
A medicação é gratuita para cidadãos e residentes, podendo em alguns casos ser entregue em casa por drones pouco tempo após o pedido. Os não residentes pagam os serviços na totalidade, geralmente no momento do atendimento, normalmente através do seguro. Anteriormente, todos os serviços de saúde eram gratuitos, mas foram introduzidas taxas devido ao crescimento do turismo médico.
Para quem não tem meios económicos, existem fundações como a Jalila Foundation e o Crescente Vermelho, que cobrem totalmente os custos de saúde. Assim, ninguém fica sem acesso aos cuidados de que necessita. Curiosamente, graças a estas fundações, às quais todos os que têm mais recursos fazem doações (faz parte da cultura e da religião), não existem pessoas sem-abrigo. É algo que merece reflexão, especialmente numa sociedade como a nossa, cada vez mais afetada pela inflação, pela ameaça de guerra às portas da Europa e por uma preocupante falta de empatia face às necessidades dos outros.

Pode descrever um dia típico de trabalho de um médico de família no Dubai?
No setor público, os turnos decorrem das 7h30 às 15h30 e das 14h00 às 22h00, incluindo fins de semana em regime rotativo, totalizando 40 horas semanais. No setor privado há maior flexibilidade, como em Portugal.
Existe uma aplicação oficial do DHS através da qual os utentes fazem todos os pedidos, incluindo marcações de consultas. Em alternativa, e raramente, os pedidos são feitos por telefone. É também possível agendar uma videochamada através da aplicação. O objetivo é reduzir o consumo de papel e digitalizar completamente o sistema, pelo que o centro de saúde já não tem impressoras, nem delas precisa.
As consultas sem marcação (semelhantes às nossas consultas abertas) começam às 7h50, variando em número consoante a disponibilidade de cada médico, mas com pelo menos quatro vagas por dia. Todas as consultas, marcadas ou não, têm 20 minutos de duração. Não são classificadas por tipo, já que valorizam o princípio de tratar a pessoa e não a doença. Cada médico tem dois tempos bloqueados na agenda, uma pausa de 20 minutos a meio da manhã e um intervalo de almoço de 30 minutos, tudo incluído no horário de trabalho.
Todos os utentes fazem o check-in na receção à chegada e, independentemente de serem consultas urgentes ou programadas, são primeiro vistos pelo enfermeiro, que regista o motivo da vinda e colhe os sinais vitais antes da consulta médica.
Existem clínicas especializadas de diabetes e hipertensão, onde os doentes com estas patologias são avaliados anualmente para check-up completo e rastreios específicos (como retinopatia e nefropatia) ou quando estão descompensados. Todo o seguimento restante é feito no centro de saúde da área de residência.
As análises de rotina ou urgentes são colhidas no centro e enviadas para o hospital, com resultados disponíveis no dia seguinte. Há também raio-X e ECG realizados por técnicos, com resultados imediatos. Existem três centros com mamografia, para rastreio organizado ou avaliação clínica.
Há planeamento familiar, incluindo consentimento pré-nupcial (de acordo com a cultura e a lei local), e todos os métodos contracetivos estão disponíveis e são utilizados conforme necessidade clínica ou preferência do casal. Fazem diagnóstico pré-natal e, em caso de trissomias, há possibilidade de interrupção da gravidez. Nos casos de talassemia em casais portadores, oferecem a opção de interrupção ou fertilização in vitro. A vacina do HPV é disponibilizada às mulheres nas mesmas idades que no Plano Nacional de Vacinação português, e para os homens é opcional.
Quanto aos rastreios organizados, existe o do cancro do colo do útero, do cancro colorretal com teste FIT ou colonoscopia nas mesmas idades que em Portugal, e o rastreio mamográfico começa aos 40 anos, de dois em dois anos.
Existem centros de cessação tabágica e o departamento de saúde pública visita regularmente as escolas para pesar as crianças e fazer rastreios visuais.
As visitas domiciliárias são feitas de três em três meses e, entre essas visitas, os enfermeiros fazem contactos presenciais ou por videochamada com o médico. Levam o equipamento necessário e colhem amostras durante as visitas. Tive oportunidade de acompanhar uma dessas visitas e senti-me extremamente bem acolhida pela família árabe.
Vi pessoas a cuidar de outras com felicidade e gentileza, e é isso que deveria ser o verdadeiro sentido dos cuidados de saúde. Mas isso só é possível com profissionais motivados e boas condições de trabalho.
Comparando a prática da Medicina Geral e Familiar no Dubai e em Portugal, houve algo que a fez pensar “Gostava que fosse assim em Portugal”?
Sem dúvida. Os recursos disponíveis são muito diferentes da nossa realidade. Em Portugal fazemos muito com pouco; lá, com muito, fazem mais e melhor. Por exemplo, o tempo de espera para uma consulta é sempre inferior a 10 dias. Estes tempos são monitorizados por um software de indicadores que acompanha principalmente o número de consultas e o tempo de espera. Se estes aumentam, o governo contrata imediatamente mais profissionais para reduzir as listas. Nos hospitais o tempo de espera é maior, mas nunca ultrapassa os 3 meses.
O sistema é muito pouco burocrático e inclui a emissão de certificados médicos essenciais, como para prioridade de atendimento em caso de mobilidade reduzida. Não existem atestados médicos para carta de condução: o próprio centro realiza as avaliações oftalmológicas e médicas necessárias. Os certificados de incapacidade laboral são emitidos pelo médico que faz o diagnóstico ou realiza a cirurgia, definindo logo o tempo de recuperação necessário. O utente recebe o salário por inteiro, independentemente da causa ou duração da baixa.
Utilizam o software Epic e o sistema SALAMA, onde estão guardados todos os dados do utente, incluindo fotografia atualizada, com múltiplos separadores que permitem consultar todo o historial clínico. O sistema é muito intuitivo e praticamente sem burocracia, muito superior ao nosso SClínico®.
Tive ainda a honra de ser convidada pela responsável dos especialistas e clínicas de Cuidados de Saúde Primários do Dubai para visitar o melhor e mais recente centro de saúde, o Umm Suqeim Health Center. Fiquei absolutamente impressionada com as instalações e a organização, que adoraria ver implementadas em Portugal. Além de equipamento de imagem de última geração, tem uma sala de urgência totalmente equipada (semelhante às hospitalares), um ginásio de reabilitação com vista para a Kite Beach, consultórios de oftalmologia com todo o equipamento especializado e gabinetes de medicina dentária com dentistas especialistas. Trabalham lá todos os tipos de profissionais de saúde, incluindo psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas e dentistas, todos integrados no sistema público.
E o contrário: há algo em que Portugal é melhor?
O sistema de equipa médico-enfermeiro com lista de utentes é, para mim, uma grande vantagem, embora esteja a ser implementado lá e, infelizmente, em Portugal esteja a perder-se, com o enfraquecimento do conceito de equipa familiar estável ao longo dos anos.
Além disso, em Portugal apenas Obstetras e Radiologistas qualificados podem realizar ecografias obstétricas, o que me parece mais adequado. No Dubai, as grávidas são seguidas nos centros de saúde, exceto se forem de alto risco, caso em que são encaminhadas para o hospital. Os médicos de família podem fazer formações avançadas em saúde materna e ecografia, ficando aptos a acompanhar gravidezes de baixo risco até às 34 semanas, com as ecografias e análises realizadas no próprio centro. Se não houver disponibilidade atempada de consultas, mesmo os casos de baixo risco são enviados para o hospital.
E quanto ao equilíbrio entre vida profissional e pessoal? Na sua opinião, onde é que um médico de família tem melhor qualidade de vida: em Portugal ou no Dubai?
Sem dúvida, no Dubai. Sobretudo pelo modo como o trabalho está organizado. Por exemplo, se for necessário redigir um relatório ou documento, é bloqueada uma vaga na agenda para esse efeito, o que evita sobrecarga e horas extra. As pausas entre consultas e a hora de almoço são obrigatórias e realmente respeitadas, e o sistema informático é verdadeiramente útil.
Os profissionais são valorizados e reconhecidos, o que contribui para a realização pessoal e o bem-estar. Existe algo chamado “horas de felicidade”: quando um profissional faz algo de destaque, o responsável pode oferecer-lhe três horas livres, que pode usar como quiser. É como sair mais cedo, uma prática inimaginável em Portugal atualmente.
Vi pessoas a cuidar de outras com felicidade e gentileza, e é isso que deveria ser o verdadeiro sentido dos cuidados de saúde. Mas isso só é possível com profissionais motivados e boas condições de trabalho.
Esta experiência foi extremamente enriquecedora, tanto pela troca clínica como pelo esclarecimento de dúvidas que tinha antes do estágio, e também por me ajudar a ultrapassar receios relacionados com diferenças culturais. Um médico é sempre um médico, esteja onde estiver, onde for mais necessário.
Quero expressar o meu profundo agradecimento à Dr.ª Mouza AlMehairi e à Dr.ª Shatah AlSuwaidi pela amabilidade, gentileza e cuidado com que me receberam, integraram e orientaram ao longo desta experiência tão enriquecedora. Shukran!

Entrevista conduzia por Carlos Martins
