Rastreio de Helicobacter pylori associado ao rastreio do cancro do cólon e reto

 

 

Pergunta clínica: Entre as pessoas convidadas para o rastreio do cancro do cólon com teste imunoquímico fecal (FIT), a adição de um teste de antigénio Helicobacter pylori nas fezes ao FIT reduz as taxas de incidência e de mortalidade por cancro gástrico, em comparação com o FIT isolado?

Desenho do estudo: Este ensaio clínico randomizado de base populacional envolveu 51 centros de saúde em 26 municípios do condado de Changhua, em Taiwan. Os participantes, com idades entre os 50 – 69 anos, foram randomizados para um convite para teste de antigénio Helicobacter pylori nas fezes + FIT ou apenas FIT. O recrutamento foi feito desde 1 de janeiro de 2014 a 27 de setembro de 2018 e o acompanhamento final foi realizado em 31 de dezembro de 2020. Foram selecionadas aleatoriamente 240 000 pessoas utilizando software informático e distribuídas aleatoriamente numa proporção de 1:1, cada uma constituída por 120 000 pessoas, para o grupo do teste de antigénio Helicobacter pylori nas fezes + FIT ou apenas FIT. Resultados positivos do teste de antigénio Helicobacter pylori nas fezes obrigaram a tratamentos antibióticos padronizados e, em algumas pessoas de endoscopia digestiva alta; resultados positivos do FIT obrigaram a colonoscopia. Os outcomes primários estabelecidos foram a incidência e a taxa de mortalidade por cancro gástrico e os secundários, a incidência e mortalidade por cancro do cólon.

Resultados: De 240 000 adultos aleatorizados, 63 508 foram convidados para teste de antigénio Helicobacter pylori nas fezes + FIT e 88 995 apenas para FIT. Dos 240 000 aleatorizados, foram excluídos 38 792 que não estavam contactáveis e 48 705 que não receberam um convite. Dos convidados, as taxas de participação no rastreio foram de 49,6% para o teste de antigénio Helicobacter pylori nas fezes + FIT e de 35,7% para o FIT isolado. As taxas de incidência de cancro gástrico foram de 0,032% no grupo teste de antigénio Helicobacter pylori nas fezes + FIT e de 0,037% no grupo FIT isolado, isto é, não houve redução significativa da incidência quando utilizados os dois testes. As taxas de mortalidade por cancro gástrico foram de 0,015% no grupo teste de antigénio Helicobacter pylori nas fezes + FIT e de 0,013% no grupo FIT isolado. No entanto, após o ajuste para diferenças na participação no rastreio, duração do acompanhamento e caraterísticas do paciente em análises post hoc, um convite para teste de antigénio Helicobacter pylori nas fezes + FIT foi associado a taxas mais baixas de cancro gástrico (0,79 [IC 95%, 0,63-0,98]), mas não à mortalidade por cancro gástrico (1,02 [IC 95%, 0,73-1,40]), em comparação com o FIT isolado.

Comentário: Em Portugal, o teste de antigénio Helicobacter pylori nas fezes não é atualmente comparticipado, o que se tornaria um obstáculo à adesão dos utentes, não permitindo uma facilitada aplicabilidade deste método de rastreio juntamente com a pesquisa de sangue oculto nas fezes, a título individual. Ainda assim, penso que será interessante acompanhar novos desenvolvimentos nesta área, visto ser de extrema importância detetar este microrganismo dada a sua comprovada relação com cancro gástrico.

Artigo original: JAMA

Por Rebeca Cunha, USF Trilhos Dueça

 

 

 

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