
Mas o que Trump e Musk estão a executar é muito diferente. Tal como está a fazer com a proibição de alguns livros em bibliotecas, o movimento MAGA silenciou abruptamente o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças.
No final da década de 20 do século passado, na União Soviética o agrónomo Lysenko esteve na origem de um desvio pseudocientífico que negava a biologia da hereditariedade descrita inicialmente pelo monge agostiniano checo Gregor Mendel (1822-1884).
Baseado em princípios lamarckianos, ele estava convencido que as características adquiridas durante a vida do indivíduo poderiam ser passadas à sua descendência.
Assim, entre outros métodos, ele propôs que seria possível ter espécies mais resistentes se se conservassem as sementes de cereais em frio antes de as semear.
Só há um “pequeno” problema com a teoria evolutiva proposta por Lamarck: ela está redondamente errada.
Não obstante, Josef Estaline elevou esta pseudociência à única verdade. Era a ciência soviética versus a ciência ocidental (onde é que já ouvimos isto?).
Infelizmente esta decisão teve consequências trágicas para o povo soviético que, desta forma, teve ainda menos acesso a bens essenciais para a sua sobrevivência.
Décadas volvidas, é inevitável o paralelismo com a atualidade em que as decisões executivas de Donald Trump silenciaram recentemente várias agências federais nos EUA.
De salientar que é legítimo que um determinado executivo altere o peso do Estado, a forma como este se relaciona com a sociedade e o seu financiamento.
Também cabe ao governo de cada país decidir se e como investe em ciência.
Mas o que Trump e Musk estão a executar é muito diferente. Tal como está a fazer com a proibição de alguns livros em bibliotecas, o movimento MAGA silenciou abruptamente o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (em inglês: Centers for Disease Control and Prevention – CDC). Os seus boletins semanais intitulados Morbidity and Mortality Weekly Report (MMWR) começaram a ser publicados em 1961. Esta informação rigorosa foi essencial para identificar, entre muitos outras, a pandemia da SIDA e COVID .
Sem dados não é possível prevenir a doença e promover a saúde das nossas comunidades e ficamos todos, sem exceção, mais vulneráveis.
É que, como William Edwards Deming afirmou, “Sem dados você é apenas uma pessoa qualquer com uma opinião.”
Esta decisão é tão grave que foi destacada recentemente pelas prestigiadas revistas científicas New England Journal of Medicine (NEJM) e The Journal of the American Medical Association (JAMA).
A ciência não é uma panaceia e em nome dela muitos erros foram cometidos, mas é um método que contribui inegavelmente para o nosso desenvolvimento e bem estar.
Mas tal só pode acontecer se tivermos acesso à informação, que deve ser analisada com pensamento racional e criticada livremente por pares.
Os actuais tempos implicam firmeza nos princípios de liberdade para os intelectuais, artistas e cientistas. Não podemos contemplar um futuro em que pequenos egocêntricos impõem convicções.
A ciência não pode ficar amordaçada.
