Por Ricardo Rocha, UCSP Moimenta da Beira
Pergunta clínica: O uso de anti-inflamatórios não esteróides (AINE’s) após enfarte do miocárdio é seguro? A existir risco, ele diminui com o tempo?
Desenho do estudo: Os autores deste estudo de coorte dinamarquês identificaram pacientes vítimas de EAM entre 1997 e 2009, e relacionaram estas informações com a base de dados de dispensa de medicamentos para determinar se algum dos doentes tinha adquirido um AINE sob receita médica. Apenas o ibuprofeno (200 mg, no máximo, 100 de cada vez) estava disponível para venda livre nas farmácias do país durante o período do estudo. Os investigadores também reuniram informações sobre comorbilidades, outras medicações e variáveis demográficas, para que fosse possível tentar ajustar as diferenças entre os grupos por meio de análise multivariada. Pacientes que morreram durante a hospitalização, com EAM prévio, com menos de 30 anos e os que morreram dentro de 30 dias após a alta foram excluídos. A população final do estudo incluiu 99.187 participantes, com idade média de 69 anos; 36% eram mulheres. Os autores encontraram um aumento significativo na probabilidade de morte entre os consumidores de AINEs durante cada um dos cinco anos seguintes ao evento EAM. Enquanto o risco absoluto diminuiu, o aumento relativo do risco com o uso de AINEs foi semelhante (hazard ratio = 1,59-1,84). O aumento do risco foi semelhante para o rofecoxib, celecoxib e ibuprofeno, e foi ligeiramente maior para o diclofenac e menor para o naproxeno. As limitações do estudo incluem a dosagem e a duração do tratamento, que foram estimadas a partir dos dados da farmácia, e o facto de os pacientes poderem ter obtido 200 mg de ibuprofeno fora da farmácia, para além dos AINEs prescritos.
Comentário: As diretrizes da American Heart Association (AHA) recomendam que os pacientes com doença cardiovascular evitem o uso de AINEs, por causa do aumento do risco de eventos cardiovasculares. Este estudo reforça que a toma de AINEs implica um risco aumentado e persistente de doença coronária, independentemente do tempo decorrido após o primeiro evento cardiovascular. Portanto, a utilização de AINEs a longo prazo para pacientes após EAM requer cautela, sendo que, a ser utilizados, o agente preferido deve ser o naproxeno pois evidenciou um risco ligeiramente mais baixo. (LOE = 2b)
