Avaliação da antibioterapia de curta duração na infeção urinária pediátrica não complicada

 

 

Pergunta clínica: Em crianças com infeção urinária, a antibioterapia durante 5 dias é tão eficaz como durante 10 dias?

Enquadramento: Apesar de cada vez mais se recomendarem ciclos curtos de antibioterapia no tratamento de infeções urinárias não complicadas nos adultos, é ainda pouco clara a sua aplicação em idade pediátrica. Deste modo, este estudo teve como objetivo avaliar se a eficácia da antibioterapia de curta duração (5 dias) no tratamento de infeções urinárias em crianças é sobreponível à do tratamento padrão.

Desenho do estudo: Ensaio clínico randomizado de não inferioridade, duplamente cego, no qual foram randomizadas em dois grupos 664 crianças com o diagnóstico de infeção urinária, com idades compreendidas entre os 2 meses e os 10 anos. Em ambos os grupos as crianças receberam antibiótico durante 5 dias. Ao quinto dia, mediante melhoria clínica, as crianças eram então aleatorizadas. No grupo de tratamento padrão, receberam mais 5 dias de antibiótico. No grupo do tratamento curto, foram tratadas durante 5 dias adicionais com placebo. Foi avaliada a eficácia de ambas opções tendo em conta a falha do tratamento, definida pelo ressurgimento de infeção urinária sintomática, antes ou durante a visita de acompanhamento inicial, entre o 6º e os 11 a 14 dias. Os investigadores, mascarados para a alocação de cada criança, efetuaram avaliações presenciais das crianças aos 11 a 14 dias e aos 24 a 30 dias após o tratamento inicial. Foram ainda analisados a presença de bacteriúria assintomática, colonização gastrointestinal com microorganismos resistentes, a incidência de efeitos adversos e o desenvolvimento de infeções urinárias após a primeira visita de acompanhamento.

Resultados: A presença de infeção urinária sintomática entre o 6º e o 14º dia ocorreu em 2 das 328 crianças que receberam o tratamento padrão (0.6%) e em 14 das 336 crianças que cumpriram o ciclo curto (4.2%), com uma diferença estatisticamente significativa. No entanto, seria necessário tratar 28 crianças com a duração de tratamento padrão para prevenir 1 falha do tratamento (IC 95%; 16 – 80). Paralelamente, as crianças que cumpriram o ciclo curto de antibiótico apresentaram maior risco de bacteriúria assintomática ou cultura de urina positiva entre os 11 a 14 dias (8.6% vs. 3.4%). Não se mostraram diferenças entre ambos os grupos nas taxas de infeções urinárias   após a primeira visita, incidência de efeitos adversos ou incidência de colonização gastrointestinal com organismos resistentes.

Comentário: O estudo SCOUT foca-se numa questão muito pertinente na nossa prática clínica que é a duração do tratamento das infeções urinárias em idade pediátrica.  Apesar da maior taxa de recaída sintomática nas crianças que cumpriram o ciclo curto de tratamento, a diferença encontrada com o outro grupo foi muito reduzida o que, num país desenvolvido, com facilidade de acesso aos cuidados de saúde e pais ou cuidadores alertados para sinais de alarme, pode viabilizar esta prática, mesmo para aquelas com febre como manifestação inicial da doença. Deste modo, são minimizados os efeitos associados à utilização prolongada de antibióticos, como os efeitos adversos ou a criação de resistências bacterianas, não comprometendo a eficácia do tratamento.  No entanto, alguns fatores devem ser tidos em conta, como o facto de neste estudo não serem avaliados fatores sociais, nem a adesão terapêutica nos 5 dias iniciais de tratamento, se ter concentrado em crianças com infeções urinárias não complicadas e não se ter avaliado o surgimento de cicatrizes renais.

Artigo original: JAMA Pediatr 

Por Filipe Santos Leal, USF Mondego, ULS de Coimbra

 

 

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