
Enquadramento: Os analgésicos opioides são frequentemente usados para tratar dores lombares e cervicais apesar de a evidência científica disponível não ser abundante.
Pergunta clínica: Em doentes com dor lombar e/ou cervical, a adição de opioide ao tratamento recomendado pelas guidelines conduz a um melhor controlo da dor às 6 semanas do que o placebo?
População: doentes com dor lombar e/ou cervical com intensidade de dor moderada ou maior com início há 2 a 12 semanas
Intervenção: adição de oxicodona+naloxona (oxicodona titulada até 20mg por dia) ao tratamento recomendado por guidelines durante até 6 semanas
Comparação: adição de placebo ao tratamento recomendado por guidelines durante até 6 semanas
Outcome: grau de dor às 6 semanas medida através do Inventário Resumido da Dor
Desenho do estudo: Ensaio clínico aleatorizado. Os participantes foram aleatorizados 1:1 para receber analgésico opioide (oxicodona+naloxona) ou placebo como complemento para a terapêutica recomendada em guidelines para tratamento da dor lombar e/ou cervical. Os participantes deveriam ter dor moderada a severa com início desde há 2 a 12 semanas. Os doentes foram tratados durante um máximo de 6 semanas até que o score de dor fosse inferior a 1 em 10. Considerou-se como marcador (endpoint) primário o score de dor às 6 semanas segundo o Brief Pain Inventory. Marcadores secundários incluíram função física, tempo de recuperação, qualidade de vida, eventos adversos e risco de uso inadequado de opioides. Foram excluídos doentes com patologia espinhal grave, com contraindicações para o uso de opioides, que já tivessem tomado analgésico opioide para o episódio de dor sob tratamento, que tivessem sido submetidos a cirurgia à coluna nos 6 meses anteriores, que estivessem a ser considerados para cirurgia à coluna no período das 6 semanas de tratamento, pacientes com menos de 18 anos e mulheres grávidas, a considerar engravidar ou a amamentar.
Resultados: Foram recrutados 347 pacientes sendo que 97% eram provenientes dos Cuidados de Saúde Primários. No final do estudo, restaram 310, sendo que o score de dor às 6 semanas no grupo dos opioides era de 2.78 e no grupo do placebo era de 2.25. A diferença média ajustada foi de 0.53. No grupo dos opioides, 61 (35%) reportaram um ou mais efeitos adversos contra 51 (30%) no grupo do placebo. Como esperado, obstipação foi mais frequente no grupo dos opioides (13 vs 6), assim como o risco de uso indevido de opioides às 52 semanas (24 v 46). Os autores concluem que não há evidência de que os opioides devam ser prescritos a doentes com dor lombar ou cervical aguda não específica.
Comentário: Este estudo não mostrou evidência que suporte o uso do reforço do tratamento da dor lombar e/ou cervical não específica com ooxicodona+naloxona. Antes de se poder extrapolar para os restantes opioides, seria interessante um estudo idêntico que avaliasse o uso de outros opioides, sobretudo nos doentes mal controlados pelos fármacos recomendados nas guidelines. O tratamento de dor musculoesquelética aguda pode ser feito com a combinação de anti-inflamatórios não esteroides e paracetamol, sendo que o uso de analgésicos multimodais pode diminuir a prescrição de opioides, prevenindo o uso indevido destes.
Por João Lopes Guedes, USF Santo André de Poiares
