CA-125 para detectar cancro do ovário: um marcador pouco fiável

 

 

Pergunta clínica: Qual a precisão diagnóstica do CA-125 na deteção de cancro do ovário?

Desenho do estudo: Estudo de coorte retrospectivo. Incluiu mulheres adultas, sem história de diagnóstico de cancro do ovário, com doseamento de CA-125 pedido no âmbito dos cuidados de saúde primários. Foram excluídas mulheres com doseamento de CA-125 nos 12 meses anteriores. O marcador (outcome) primário foi o diagnóstico de neoplasia maligna do ovário, das trompas de Falópio ou peritoneal, ou neoplasia de significado indeterminado no ovário, nos 12 meses seguintes à avaliação do CA-125. O marcador (outocome) secundário foi o diagnóstico de neoplasias malignas não ováricas (excepto cancros da pele “não-melanomas”). Foram identificados os sintomas que levaram à requisição da pesquisa de CA-125 através da consulta dos códigos encontrados no Clinical Practice Research Datalink (Reino Unido)

Resultados: Entre 1 de Maio de 2011 e 31 de Dezembro de 2014, 50780 mulheres fizeram análise ao CA-125. 456 mulheres (0,9%) receberam o diagnóstico de cancro do ovário (incidência 3 vezes superior no grupo com ≥50 anos). 172 (37,7%) encontravam-se no estadio I ou II e 209 (45,8%) no estadio III ou IV. A neoplasia mais frequentemente detectada foi o tumor epitelial seroso (48,6% dos tumores invasivos, n=174). 1321 mulheres (2,6%) foram diagnosticadas com cancro não-ovárico.
Tendo em consideração um limiar para o CA-125 ≥35U/mL, cerca de 90% das mulheres com resultado positivo não tinham cancro do ovário (valor preditivo positivo de 10.1%; IC 95% 9.1–11.2). O valor preditivo positivo nas mulheres <50 anos foi de 3,4%. 99,8% das mulheres com resultado negativo não tinham cancro do ovário (valor preditivo negativo de 99.8%; IC 95% 99.7–99.8). O CA-125 apresentou uma sensibilidade de 77.0% (IC 95%: 72.8–80.8%) e uma especificidade de 93.8% (IC 95%: 93.6–94.0) para o diagnóstico de cancro do ovário.
47,8% das mulheres identificadas reportaram sintomas de possível cancro do ovário nos 30 dias anteriores à realização do estudo do CA-125: dor abdominal (49,2%), distensão abdominal (23,4%) e alteração do trânsito gastrointestinal (11,8%), fadiga (7,0%), dor pélvica (6,7%), perda de peso (3,8%), polaquiúria (2,3%), massa abdominal ou pélvica (1,7%), etc.
Das mulheres >50 anos com CA-125 positivo e sem cancro do ovário, 20,4% foram diagnosticadas com cancro não-ovárico.

Comentário: Este não é claramente o desenho de investigação ideal para validar o uso de CA-125 como teste de rastreio, mas também não era esse o objectivo deste estudo. Por outro lado, sabemos bem que o uso de marcadores de rastreio como teste de rastreio ou de diagnóstico levanta sempre muitos problemas. Neste caso, em mulheres com sintomas inespecíficos – dor abdominal ou distensão, alteração de hábitos intestinais, entre outros – que levaram os médicos de medicina geral e familiar ingleses a solicitar um teste CA-125, um resultado negativo do teste excluiu corretamente 99,8% das mulheres. No entanto, os resultados positivos eram falsos em 90% dos casos.  E nas mulheres com menos de 50 anos esse valor subiu para 95%. Isto significa que o uso deste tese como ferramenta de diagnóstico acarreta um potencial dano que é muito significativo.

Artigo original: PLOS Medicine

Por Mariana Rio, USF PortoCentro

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