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É uma necessidade e dever cívico escrever este texto para que as pessoas possam tomar decisões informadas. Numa sociedade consumista em que a saúde não escapa a este desígnio, preocupa-me o percurso que estamos a fazer. Não devemos pensar que mais é melhor, até porque o conhecimento nos diz muitas vezes o contrário. As intervenções em saúde individual e das populações devem ser fundamentadas e deve-se evitar a generalização, banalização e falta de contexto. Na minha prática clínica verifico de forma exponencial a solicitação de realização de “análises de rotina” em pessoas saudáveis e sem fatores de risco individual ou familiar, mesmo em crianças em idade pré-escolar. Também assisto a um marketing agressivo por laboratórios e clínicas de exames complementares, assim como hospitais particulares. A publicidade na televisão segue esta linha com exploração do negócio em saúde e os profissionais na área da saúde são alvo com maior frequência destas estratégias de marketing.

A informação em saúde é um direito das pessoas e a sociedade deve estar preparada para que a mensagem seja transmitida de forma clara e fundamentada, isenta de desinformação. As redes sociais têm contribuído para esta dimensão menos fidedigna e não se verifica qualquer controlo assertivo ou intervenções efetivas no controlo desta condição. Existe uma responsabilidade da sociedade em contribuir para a resolução deste problema que se acentua ao longo dos anos.

Continuo aqui o meu contributo para que possamos tomar decisões corretamente informados. A avaliação em saúde não é um ato estanque nem passível de ser reprodutível da mesma forma para todos os indivíduos. É mais complexo do que o que é transmitido por todas as vias que citei anteriormente. Exige um processo contínuo e contextualizado, que como Médico de Família me permite aconselhar da forma mais correta em função de antecedentes pessoais, familiares, sintomas e sinais apresentados, melhor evidência e recomendações de base científica, e assim evitar intervenções que podem ser mais prejudiciais do que benéficas para a pessoa que procura os cuidados de saúde.

O meu apelo é que todas as intervenções e recomendações de saúde sejam claramente explicitadas, com distinção dos riscos e benefícios existentes, e assim garantir que a pessoa possa tomar decisões em saúde. Nada é tão redutor como um pedido de análises de rotina sem qualquer contexto ou personalização. Isso é como dar um cabaz de compras igual para todas as pessoas, sem perceber quais são as suas verdadeiras necessidades.

Na minha prática mantenho o meu perfil e procuro ser o mais claro possível, reconhecendo que nem sempre temos uma recomendação tão efetiva como a pessoa gostaria. A transparência deve ser transversal e devemos questionar sempre que uma intervenção seja feita com base em dogmas generalistas.

Este texto é o meu apelo, o que fazemos no nosso dia-a-dia é o verdadeiro agente da mudança.

Por Philippe Botas

 

 

 

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