
Pergunta clínica: A exposição intrauterina à infecção por SARS-CoV-2 está associada a um risco aumentado de neurodesenvolvimento anormal em crianças de até 24 meses?
Desenho do estudo: As participantes participaram no estudo ASPIRE (Assessing the Safety of Pregnancy in the Coronavirus Pandemic), um estudo coorte prospetivo, que incluíram mulheres grávidas, com 18 ou mais anos de idade e menos de 10 semanas de gestação à data da inclusão, e seus filhos. O recrutamento foi feito de forma online, tendo-se considerado com exposição a infeção por COVID-19 in utero. As mulheres responderam posteriormente a um questionário de rastreio de atraso no desenvolvimento, aos 12, 18 e 24 meses pós-parto, sendo que um valor anormal em qualquer domínio (comunicação, motora grosseira, motora fina, capacidade de resolução de problemas, ou social skills) foi considerado um rastreio anormal.
Resultados: O estudo que incluiu 2003 mulheres grávidas, com uma média de idades de 33.3 anos. Foram realizados ajustes para controlar possíveis fatores confundidores, incluindo idade materna, raça e etnia, nível educacional, renda familiar e histórico de ansiedade ou depressão materna. Os outcomes do neurodesenvolvimento foram avaliados aos 12 meses a 1757 crianças, 1522 crianças aos 18 meses, e 1523 aos 24 meses. No primeiro grupo (12 meses), a prevalência de rastreios anormais em crianças expostas vs não expostas a infeção por COVID-19 era, respectivamente, 64 em 198 (32.3%) vs 458 em 1559 (29.4%); aos 18 meses foi de 36 em 161 (22.4%) vs 279 em 1361 (20.5%); e aos 24 meses foi 29 em 151 (19.2%) vs 230 em 1372 (16.8%). Num modelo ajustado de regressão logística de efeitos mistos, não se observou diferença de rastreios aos 12, 18 ou 24 meses. Análise suplementar também não identificou diferença no risco com base no trimestre de infeção, presença ou ausência de febre, ou infeção após vacinação vs infeção primária.
Comentário: Tratando-se de um estudo de larga escala e prospetivo, os resultados relativos à exposição de mulheres grávidas a infeção por COVID-19 e rastreio de alterações no neurodesenvolvimento na sua descendência, parece mostrar resultados positivos. No entanto, deve-se ter em consideração a forma como foi feito o recrutamento das participantes (online e com recurso ao auto-reporte de informação), pode diminuir a variabilidade das características sociodemográficas da população em estudo e, por consequência, a generalização das conclusões a populações mais vulneráveis. Para além disso, o questionário é de rastreio e não de diagnóstico, pelo que os resultados não podem ser interpretados como ausência de risco de alterações no neurodesenvolvimento. No grupo das grávidas sem infeção por COVID-19, poderão estar ainda contabilizadas mulheres com infeção assintomática, uma vez que apenas metade das participantes tinha resultados de serologias para a infeção, aumentando ainda mais a dificuldade de interpretação dos resultados.
Em suma, as notícias deste estudo são positivas, mas dado desconhecimento das sequelas a longo prazo da infeção por COVID-19, bem como o efeito da ativação imune materna no desenvolvimento cerebral fetal, mais estudos deverão ser realizados, em diferentes populações, de forma a gerar conclusões mais definitivas.
Artigo original: JAMA Netw Open
Por Maria Santos, USF Viseu-Cidade
