Low fat ou low carb?

 

 

Pergunta clínica: Qual das dietas – dieta com baixo teor de gorduras ou dieta com baixo teor de hidratos de carbono – será mais eficaz na redução do peso e na diminuição do risco cardiovascular?

Enquadramento: Mais de 40 anos se passaram desde que o Dr. Robert Atkins defendeu, pela primeira vez, que uma dieta com baixo teor de hidratos de carbono (ingestão <20g/dia)  promoveria uma perda sustentada de peso. Desde então, as dietas pobres em hidratos de carbono tornaram-se numa estratégia popular para a perda, e posterior manutenção, do peso, desconhecendo-se, no entanto, quais os seus efeitos a nível cardiovascular.

Desenho do estudo: Estudo aleatorizado e controlado. Os participantes no estudo pertenciam a uma população diversificada (com uma representação substancial de indivíduos de raça negra) sem comorbilidades clínicas conhecidas e sem tratamentos para perda de peso, farmacológicos ou cirúrgicos, instituídos no mesmo período. Os indivíduos foram divididos aleatoriamente em dois grupos: um grupo com dieta com ingestão inferior a 40g de hidratos de carbono por dia e um grupo com dieta dirigida a manter uma ingestão de gorduras inferior a 30% da ingestão calórica diária, em seguimento durante 12 meses. Nenhuma das dietas contemplava um objectivo calórico específico. Os participantes de ambos os grupos receberam aconselhamento nutricional que consistiu em sessões semanais individuais com um nutricionista durante as primeiras quatro semanas e, posteriormente, sessões em pequenos grupos, em semanas alternadas, durante os 5 meses seguintes, de acordo com guiões previamente elaborados. As avaliações dos outcomes, que compreendiam parâmetros laboratoriais e antropométricos, foram realizadas por investigadores que desconheciam a alocação dos participantes.

Resultados: Os 148 participantes no estudo foram voluntários do público em geral: 88% eram mulheres e 50% eram de raça negra. O período de follow-up foi completado por 82,2% dos indivíduos a cumprir a dieta hipolipídica e 78,7% a cumprir a dieta com baixo teor de hidratos de carbono. Decorridos 12 meses, o grupo em dieta com baixo teor de hidratos de carbono tinha perdido, em média, mais 3,5kg do que o grupo em dieta hipolipídica (média de 5,3kg vs. 1,8kg, respectivamente), evidenciando, ainda, uma maior redução da massa gorda e um maior ganho de massa magra. Apesar dos níveis de colesterol total não terem alterado de forma significativa em qualquer um dos grupos, os níveis de HDL aumentaram significativamente mais no primeiro grupo (dieta com baixo teor de hidratos de carbono) e os níveis de triglicerídeos diminuíram de forma mais significativa nesse grupo também. Os valores de pressão arterial, glicemia ou insulina não diferiram entre os grupos.

Conclusão: Este estudo veio demonstrar que uma dieta pobre em hidratos de carbono – ainda que não tão restrita e rigorosa como a dieta promovida por Atkins  – levou a uma perda de peso, em média, 3,5kg superior a uma dieta pobre em gorduras. Ambas as dietas foram mantidas sem qualquer restrição calórica; por outras palavras, trataram-se de dietas hipoglicídicas e hipolipídicas, e não de dietas hipocalóricas.

Comentário: Os resultados deste estudo são consistentes com os de outras investigações e, apesar dos mecanismos subjacentes a esta maior perda de peso não estarem ainda bem identificados, estudos recentes sugerem que as dietas com baixo teor de hidratos de carbono podem ter um efeito mais favorável dos que as dietas hipolipídicas sobre o consumo calórico em repouso e o consumo calórico total. Estes dados parecem sustentar a recomendação de uma dieta hipoglicídica em indivíduos obesos como estratégia não-farmacológica para a perda de peso e diminuição dos factores de risco cardiovascular. Como principais limitações desta investigação salienta-se: a informação relativa ao cumprimento do plano dietético ser auto-reportada pelos participantes, a hipótese em estudo não estar ocultada aos nutricionistas que forneciam o aconselhamento, e a ausência de endpoints clínicos, nomeadamente, doença cardiovascular.

Artigo original: Ann Intern Med

Por Ana Mafalda Macedo, USF Prelada   

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