Pergunta clínica: Como é que a utilização de telemóveis e tablets afeta a interação entre os cuidadores e as crianças no momento da refeição?
Desenho do estudo: Estudo de observação não participada por investigador oculto, entre Julho e Agosto de 2013, com observação de cuidadores e crianças durante refeições em restaurantes fast food em Boston, por observador não participante. Três observadores treinados visitaram os restaurantes, individualmente, entre o almoço e o jantar, compraram comida e sentaram-se o mais próximo possível dos grupos ou aguardaram que grupos elegíveis se sentassem perto deles (grupos de um ou mais adultos acompanhados por uma ou mais crianças, com idade aparente compreendida entre os 0-10 anos). Para a observação ser válida a refeição teve que durar pelo menos 10 minutos, todos os indivíduos foram visíveis e o observador estava próximo o suficiente. A análise qualitativa dos dados de observação não-estruturada permitiu a definição dos temas e componentes relacionados com padrões da utilização de dispositivos móveis e comportamentos. A saturação temática foi alcançada com 55 observações.
Resultados: Das 55 observações realizadas, os grupos tinham apenas um cuidador em 58,2% dos casos e entre uma a três crianças. O tema dominante foi a “atenção com o dispositivo móvel”. Três características contribuíram para o nível de atenção/concentração: frequência, duração e modalidade de utilização. Em 16 observações, os cuidadores utilizaram o dispositivo quase continuamente, com maior nível de concentração em atividades de escrita ou táteis em comparação com chamadas telefónicas, pois não mantinham contacto visual com a(s) criança(s). Também se verificou o mesmo padrão em casos de utilização intermitente ou no final da refeição (n=8). Um menor nível de concentração no dispositivo verificou-se em casos de utilização breve (n=9). Os cuidadores concentrados nos dispositivos revelaram menor atenção para as solicitações das crianças, com alguns comportamentos automáticos e de irritação. Em 3 casos os cuidadores deram dispositivos às crianças com aparente objetivo de as distrair. Em 4 casos a atenção ao dispositivo foi partilhada por cuidadores e crianças.
Comentário: Este estudo é inovador e incide num tema atual, nomeadamente no que concerne aos contactos periódicos em Cuidados de Saúde Primários. O local de observação selecionado tem fundamentação lógica, pois as refeições são momentos em que se perspetiva uma maior interação. O acesso a novas tecnologias deve ser abordado na consulta de saúde infantil, reconhecendo o seu possível impacto no desenvolvimento da criança e na dinâmica familiar (abrangência social). Estas influências não se limitam às crianças. Um estilo de vida mais sedentário, com posturas menos corretas, com maior grau de exigências profissionais (levar o trabalho para casa), com impacto na vida pessoal, familiar e social. Fatores determinantes na saúde física e mental do indivíduo. Os excertos presentes no artigo, a relatar a concentração dos cuidadores nos dispositivos móveis são interessantes de ler e fazem-nos refletir sobre casos do nosso quotidiano, nomeadamente em eventos sociais, em que nos apercebemos que estamos fixados no telemóvel e quando olhamos em redor verificamos a quantidade de pessoas que estão a fazer o mesmo. Quantas vezes as crianças fazem o percurso até ao consultório com o tablet ou telemóvel na mão? Boa forma de distraí-los…
Por Philippe Botas, USF Topázio
