
Pergunta clínica: Se os médicos de família aprenderem os princípios da terapia cognitivo-comportamental, será que os vão implementar na sua prática clínica?
Desenho do estudo: Este é um estudo transversal. O grupo-alvo deste estudo foi constituído pelos médicos de família noruegueses que tinham frequentado um dos 8 cursos anuais em terapia cognitivo-comportamental, com a duração de um ano, entre 2009 e 2016. Assim, todos estes médicos foram convidados a participar, através de um questionário enviado por e-mail. As respostas foram analisadas de forma a avaliar as mudanças na prática clínica dos médicos de família após a conclusão do curso de terapia cognitivo-comportamental.
Resultados: Dos 217 médicos de família noruegueses que completaram o curso de terapia cognitivo-comportamental, 124 (57%) responderam a um questionário sobre o seu uso de terapia cognitivo-comportamental na sua prática diária. Destes, 99.2% reportaram utilizar ferramentas de terapia cognitivo-comportamental na sua prática clínica e 75.0% referiram realizar consultas estruturadas de terapia cognitivo-comportamental, pelo menos, uma vez por mês, após a conclusão do curso. Os doentes com depressão ligeira ou moderada (22.8%), transtornos de ansiedade (30.4%) ou ambos (43.5%) foram os que mais receberam terapia cognitivo-comportamental estruturada. As quatro ferramentas de terapia cognitivo-comportamental mais frequentemente utilizadas foram as listas de problemas, o questionamento Socrático, a psico-educação e os resumos no fim das consultas. A aplicação de estratégias como o uso do método Socrático, a disponibilização de resumos das consultas e a participação num curso de atualização sobre terapia cognitivo-comportamental associaram-se a uma redução das referenciações destes doentes para prestadores de cuidados secundários e especializados em saúde mental, pelos médicos de família.
Comentário: Ainda que a eficácia da terapia cognitivo-comportamental em patologias como a depressão, ansiedade, dor crónica e perturbação de stress pós-traumático seja amplamente reconhecida, o difícil acesso a estes cuidados pode representar uma importante barreira para os doentes, nomeadamente, no tratamento da sua doença mental. Neste estudo, a formação completa em terapia cognitivo-comportamental promoveu o uso regular destas ferramentas e estratégias em consultas diárias, permitindo aos médicos de família oferecer cuidados mais ativos e planeados a doentes com uma variedade de problemas de saúde mental, que são bastante comuns na prática clínica. Ao possibilitar uma intervenção precoce e abordagem mais eficaz, esta mudança permitiu a redução das referenciações para prestadores de serviços especializados em saúde mental, aliviando a pressão sobre os cuidados de saúde hospitalares. Estes resultados destacam, portanto, o potencial da instrução em terapia cognitivo-comportamental para melhorar a prática clínica dos médicos de família e qualidade dos cuidados prestados a estes doentes, associando-se a uma maior satisfação em ambos os médicos e doentes. Tendo em conta o impacto significativo da formação em terapia cognitivo-comportamental na otimização do acesso e tratamento das perturbações de saúde mental nos cuidados de saúde primários, este estudo pode revelar-se bastante útil na planificação e estruturação da formação específica em Medicina Geral e Familiar, bem como de futuros programas de desenvolvimento profissional contínuo.
Artigo original: Can Fam Physician
Por Bárbara Moreira, USF Caminhos do Cértoma
