
Aprendi a importância de escolher bem, com base na evidência, mas também tendo em conta a realidade da pessoa que temos à frente. Dizer “não” a um exame ou a um pedido de referenciação, de forma empática e bem explicada, pode ser tão terapêutico quanto dizer “sim”.
Quando decidi fazer um estágio observacional em Medicina Geral e Familiar na Unidade de Saúde Familiar do Mosteiro (ULS Loures-Odivelas), fi-lo com a intenção clara de sair da teoria e aproximar-me da realidade concreta da medicina. Escolhi a MGF por acreditar que é uma das áreas mais completas e desafiantes da prática médica, não só pela diversidade de situações que envolve, mas pela forma como o médico tem de lidar com pessoas, e não apenas com doenças. Sabia que queria ver de perto como se constrói uma relação terapêutica ao longo do tempo, como se concilia a ciência com a empatia, e como se toma decisões clínicas num contexto de recursos limitados, mas foi só ao viver esta experiência que compreendi verdadeiramente o que significa ser médico de família.
Logo desde o início percebi que a MGF está longe de ser uma prática “simples” ou repetitiva. Pelo contrário, exige uma enorme capacidade de adaptação e uma visão global do doente. Durante quatro semanas, acompanhei a Dra. Carla Gouveia no seu dia-a-dia clínico e fui confrontada com uma enorme variedade de situações: desde o seguimento de doenças crónicas como a diabetes ou a hipertensão, até à gestão de questões de saúde mental, dificuldades familiares, dúvidas sobre medicamentos ou sintomas agudos. E o que mais me impressionou não foi apenas essa diversidade, mas a forma como tudo era abordado com uma visão integrada, centrada na pessoa, e não apenas nos sintomas.
Tive também a oportunidade de participar ativamente em várias consultas, fazendo colheitas da história clínica, propondo diagnósticos e planos terapêuticos, que depois discutia com a minha orientadora. Esses momentos, em que fui incentivada a pensar de forma autónoma mas segura, foram essenciais para crescer como futura médica. Aprendi com os erros, com as perguntas inesperadas dos doentes e com os conselhos atentos da médica que me orientava. Além disso, pude realizar alguns exames físicos, como auscultações ou palpação abdominal, e até fazer tarefas mais técnicas como a colheita de citologia cervical. Tudo isto ajudou-me a ganhar confiança, a melhorar as minhas competências práticas e a perceber como comunicar de forma adequada consoante o contexto.
O estágio fez-me também olhar com mais atenção para aquilo que muitas vezes não se vê: o trabalho de equipa. Médicos, enfermeiros, administrativos e outros profissionais trabalham lado a lado, com um enorme sentido de missão. Ao acompanhar os enfermeiros nas suas tarefas, como cuidar de feridas, fazer o controlo de doenças crónicas ou apoiar o utente no autocuidado, percebi que a consulta médica só é possível graças a esta ajuda por vezes silenciosa, mas indispensável. O mesmo se aplica aos administrativos, que fazem a ponte entre o sistema e o doente, ajudando-o a sentir-se acolhido e orientado.
Outro ponto fundamental foi perceber como se constrói confiança ao longo do tempo. Vi doentes que, ao longo de anos, mantêm uma relação próxima com o seu médico, e como isso permite falar de temas delicados, tomar decisões em conjunto e identificar mudanças subtis que de outra forma passariam despercebidas. Essa continuidade permite que o médico conheça não apenas o historial clínico, mas a vida daquela pessoa. E essa ligação é, muitas vezes, o que faz a diferença entre um tratamento que resulta e outro que falha.
No meio de tudo isto, também me confrontei com os desafios emocionais da profissão. O desgaste de ver tanta gente com problemas difíceis, a pressão do tempo, a responsabilidade de comunicar más notícias ou de lidar com situações complexas sem soluções ideais.
Foi também neste estágio que percebi melhor o que significa ser responsável ao prescrever, ao pedir exames ou ao encaminhar doentes. No serviço público, não podemos pedir tudo o que nos apetece – há limites. E, mais importante do que isso, nem sempre o mais caro ou mais sofisticado é o mais adequado. Aprendi a importância de escolher bem, com base na evidência, mas também tendo em conta a realidade da pessoa que temos à frente. Dizer “não” a um exame ou a um pedido de referenciação, de forma empática e bem explicada, pode ser tão terapêutico quanto dizer “sim”.
No meio de tudo isto, também me confrontei com os desafios emocionais da profissão. O desgaste de ver tanta gente com problemas difíceis, a pressão do tempo, a responsabilidade de comunicar más notícias ou de lidar com situações complexas sem soluções ideais. Mas vi também como o espírito de equipa, a entreajuda e o respeito pelos próprios limites são fundamentais para manter o equilíbrio e continuar a cuidar dos outros com empatia e humanidade.
Em suma, este estágio foi muito mais do que uma oportunidade de pôr em prática o que aprendi na teoria. Foi uma experiência profundamente transformadora, que me ajudou a crescer como futura médica e como pessoa. Mostrou-me que ser médico de família é acompanhar vidas, é estar presente nas vitórias e nas dificuldades, é saber escutar, orientar e adaptar-se. Ensinou-me que a boa medicina é feita de conhecimento, sim, mas também de respeito, paciência e humildade. E que, independentemente da especialidade que eu escolha no futuro, levarei comigo estes princípios como base para a forma como quero exercer medicina.
Por Adriana Pena Nunes, Universidade Católica Portuguesa Medical School
