
“Esta é uma relíquia de família que tem sido transportada pelos meus antepassados desde gerações muito remotas”.
Foi com esta frase misteriosa que George Huntington deu início, em 1872, a uma das conferências mais marcantes na história da Neurociência.
Mas recuemos no caminho percorrido pelo médico norte-americano.
George Huntington nasceu em meados do século XIX (1850) numa aldeia em Long Island e seguindo o ofício do pai e do avô ingressou no curso de medicina na universidade de Columbia.
Um dia, acompanhando o pai em visita médica domiciliária, Huntington ficou impressionado com os movimentos involuntários de uma doente. Mais tarde, partindo do original grego que significa dança, utilizou o termo coreia para descrever esses movimentos descoordenados.
E assim regressamos à conferência de 1872, no Ohio, que o clínico intitulou, precisamente de “On Chorea”.
Para além da capacidade de sintetizar as características desta patologia incapacitante, o célebre médico compreendeu tendo em conta as suas observações e os registos do seu avô, o Dr. Abel Huntington (1778-1858) e do seu pai, o Dr. George Lee Huntington (1811-1881) o carácter hereditário dominante da patologia.
E foi assim que apesar da sua curta vida (faleceu aos 66 anos de idade) o nome do clínico ficaria para sempre como sinónimo de uma das mais estudadas patologias do movimento.
A descoberta da doença de Huntington está aqui demasiado simplificada e resumida pelo que recomendo vivamente a leitura do excelente livro Histórias da Neurociência do Prof. Dr. Luís Bigotte de Almeida.
Esta fascinante história reforça, a meu ver, a importância do estudo da família não só como ferramenta para decifrar os enigmas da fisiopatologia mas também como meio imprescindível no trabalho clínico diário do médico de família.
Tal como é salientado no relato de caso da edição Março/Abril 2013 da Revista Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, a família pode (ainda que noutro âmbito) ser a “principal doença”.
E, por isso, vale a pena reler um dos artigos basilares da nossa especialidade, do Prof. Dr. Luís Rebelo, em que o autor defende que o genograma familiar é o “bisturi do médico de família”.
Sendo assim, deixo a pergunta em jeito de desafio: quando será possível (em conjunto com os restantes métodos de avaliação familiar) construir o genograma familiar integrado no processo clínico electrónico?
