José Mendes Nunes

Livro: “Maria Adelaide Coelho da Cunha: DOIDA NÃO E NÃO!” por Manuela Gonzaga da Bertrand Editora, 2009

Um Escândalo em Portugal no Início do Século XX

Manuela Gonzaga, licenciada em história, descreve nesta obraa biografia da Maria Adelaide Coelho da Cunha, filha de José EduardoCoelho, fundador do Diário de Noticias.

O ritmo e o estilo narrativo aproximam-se de uma colectâneade peças jornalísticas que, no seu conjunto, constituem um todo lógico,que transformam esta biografia num romance trágico, contextualizado notempo e na época, fundamentado em documentos reais. Temos o relato de umcaso verídico com personagens reais que marcaram a sociedade portuguesado primeiro quarto do século XX.

O curioso, na minha perspectiva, é que sendo uma biografiade uma figura portuguesa muito curiosa, que se destacou pelairredutibilidade das escolhas que fez na vida, sem que com isso tenhacontribuído de modo notável para a sociedade, o relato das suasvicissitudes acaba por ser um profundo documento de reflexão sobrevários aspectos médicos, sociais e psicológicos.

Resumidamente podemos dizer que a obra descreve a históriade Maria Adelaide Coelho da Cunha, filha de José Eduardo Coelho,Fundador do Diário de Noticias, casada com Alfredo da Cunha, secretárioda direcção do mesmo diário, após a morte do seu fundador. MariaAdelaide, culta e educada na alta sociedade, abandona o Palácio de SãoVicente (em Lisboa), para fugir, aos 48 anos, mais precisamente a 13 deOutubro de 1918, com o motorista (ou melhor chauffeur) da casa, 20 anosmais novo, abandonando a sua posição social e riqueza herdada, para seesconder, como vulgar mulher do povo, em Santa Comba Dão.

A história poderia ficar como muitas outras, que se limitam aser tabus de família, porém, a reacção do marido desencadeia uma sériede acontecimentos e de actos que reflectem os valores e comportamentossociais de então mas, muito dificilmente, se poderá dizer que estãoultrapassados nos dias de hoje.

Para mim, como médico, o que mais choca é a utilização dosdiagnósticos com fins que nada têm a ver com o interesse da doente.Confirma a realidade do diagnóstico como constructo teórico, que dizmuito pouco acerca da realidade da saúde, da doença ou dos homens. Ainvocação de “santo nome” da ciência para justificar intervenções quevisam coarctar a liberdade de um ser humano, demonstra como a perduraçãoda “santa” inquisição se mantém ao longo dos séculos, com vestesdiferentes mas omnipresente. Mais grave ainda, quando os “inquisidores”aqui são figuras de grande relevo na Medicina Portuguesa como Ega Moniz,Miguel Bombarda e Sobral Cid, que sem consciência do seu poder,confundindo a sua crença com a verdade, e argumentando a favor destaverdade avocando elementos pseudo-cientificos.

Embora nos tenhamos habituado a ver estas personalidadescomo iminentes cientistas, a verdade é que todo o seu comportamentoneste processo revela uma incongruência básica de um cientista: não tercertezas. Os métodos dedutivos, utilizados neste processo para chegarao diagnóstico, são paradigmáticos de como só se vê o que se quer e que aestratégia desenhada para provar o diagnóstico em vez de o tentarrefutar, induz em erros, particularmente quando se não tem consciênciados esquemas mentais que modelam o raciocínio, os dados e a informação afavor da confirmação dos nossos preconceitos.

A história biográfica, em “Doida Não e Não”, é também umexemplo da utilização dos média, por partes desavindas, para esgrimirargumentos em defesa das posições, razões e direitos, em contextos emque a Justiça não desempenha o seu papel social. Quase com um século deantecedência, em Portugal, já se observava a mediatização da vidaprivada, o big brother dos nossos dias, a utilização indecorosa pelosmédia dos pormenores da desgraça allheia justificada pelos números dastiragens e, a face da mesma moeda, manipulação dos média como forma dealcançar objectivos pessoais.

A obra de Manuela Gonzaga é bastante representativa daopressão da mulher na sociedade portuguesa, a quem são reconhecidostodos os deveres e nenhuns direitos. Maria Adelaide surge,involuntariamente, como exemplo de luta pela liberdade das mulheres, aofazer as suas escolhas em consciência e contra uma sociedade totalmentecondenatória do seu comportamento.

Finalmente, esta obra tem ainda a virtude de nos localizarnos factos históricos dos primeiros anos da República, antes do EstadoNovo. A ressonância desta história nos jornais, só poderia ser antes doEstado Novo e nunca num regime de censura. O próprio enamoramento entreMaria Adelaide e o seu chaffeur surge na sequência dos cuidados que elalhe prestou quando contraiu a gripe espanhola. A dedicação deladespertou em Manuel Claro, o chauffeur, 20 anos mais novo, uma gratidãoque se confunde com amor (platónico?), veneração e entrega sem limitesque os une até ao fim da vida.

Esta não deixa de ser uma interpretação muito pessoal destaobra, pelo que desejo que não a “aceitem” de barato, que a leiam e, porfavor, digam a vossa interpretação.

 

 

Livro: “O Último Negreiro” de Miguel Real, Editora Quidnovi

“O Último Negreiro”, de Miguel Real, é um romance histórico que nos transporta à sociedade baiana do Século XVIII.

A forma como o autor descreve a realidade social da época éde um virtuosismo que me impressionou ao longo de toda a obra. Elapatenteia um trabalho hercúleo de investigação histórica, dos costumessociais, dos lugares, da política, da economia e da linguística daépoca. De facto, enquanto leio esta obra, para além de desfrutar abeleza narrativa, dificilmente me consigo distanciar do trabalho deinvestigação que está por detrás da cada linha de texto.

A história é, em si, apaixonante. O leitor fica agarradoapós um princípio difícil, até entrar na linguagem da época. Confessoque o primeiro quarto da obra foi lido em simultâneo com o dicionário. Orealismo da narrativa transporta-nos não só para a linguagem baiana mastambém para o contexto português do século XVIII.

O cenário é transcontinental, próprio de uma sociedadeportuguesa transatlântica. Conta a história do mercador de escravos,Francisco Félix de Sousa que, após meia vida de humilhação e em lutaconstante pela sobrevivência, em São Salvador da Baía, no período dasinvasões francesas, foge (ou imigra) para as terras do Reino de Daomé(Benim) onde se torna num homem rico e poderoso. Aqui, cria um impériocomercial baseado no comércio de escravos, acumulando riqueza e poderque o recompensam da miséria da sua vida em São Salvador da Baía.

Por outro lado, é um documento que retrata a geopolítica daépoca e prenunciador da globalização, demonstrando como as decisões,tomadas na Europa, influenciavam a vida de povos distantes entre si eque transformaram o Oceano Atlântico num mero rio em que, numa margem,tinha o Brasil e, na outra, a África Portuguesa separada da Metrópolepor um efluente.

O romance tem presente os valores da época e os jogospolíticos. Os Europeus hipocritamente proibiam e condenavam aescravatura mas faziam vista grossa e enriqueciam com o tráfico deescravos, pilhados por todo o Continente Africano para serem vendidos nocontinente Americano, a muito bom preço, e após muitos perecerem nocaminho durante a travessia do “rio Atlântico”.

A obra é densa e épica. As suas personagens variam entre afraqueza humana e o heroísmo sobrenatural, com o seu lado divino ediabólico mas, acima de tudo, são seres humanos que tudo fazem parasobreviver numa sociedade e época extremamente difíceis e violentas.

Miguel Real é um pseudónimo que nos tem vindo a habituar comobras que reflectem o seu trabalho abnegado e o seu espírito deinvestigador rigoroso que não pactua com facilidades.

A leitura de qualquer obra é um acto subjectivo e, portanto,criativo. Neste caso particular, o autor é um amigo da minhaadolescência, o Luís (Luís Martins). Tenho muita dificuldade de melembrar de alguma vez o ter visto sem um livro na mão ou de baixo dobraço. Os livros pareciam que faziam parte integrante da sua anatomia,como qualquer membro ou órgão. As histórias, que dele retenho,referem-se à dificuldade em conseguir financiar esse “vício”. Assíduofrequentador e amante das livrarias, por vezes encontrava livros que,por saberem que acabavam de encontrar um dono que os dignificava,teimavam em não se separar dele e, o Luís, via-se “obrigado” a“adoptá-los” correndo o risco de o acusarem de roubo.

Enfim, recursos de todos nós que, então, tínhamosdificuldades económicas para manter estas “drogas”. Já não o vejo hámeia dúzia de anos e apetece-me dizer-lhe: “Luís, valeu a pena.Obrigado”

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