Pergunta clínica: qual é o perfil lipídico dos utentes portugueses em CSP?
Enquadramento: A hipercolesterolémia está implicada em 56% da ocorrência de doença coronária e em 18% da ocorrência de doença cerebrovascular. A redução dos níveis de CT e c-LDL, nomeadamente com estatinas, reduz a incidência de DCV.
Desenho do Estudo: Estudo VALSIM, observacional e transversal envolvendo 719 médicos de família, segundo distribuição estratificada e proporcional à densidade populacional de cada região. Os objectivos foram: 1) caracterizar a distribuição dos níveis de colesterol total (CT), colesterol LDL (c-LDL), colesterol HDL (c-HDL) e triglicéridos (TG); 2) estimar a prevalência de dislipidémia na população utente dos cuidados de saúde primários em Portugal; 3) determinar a prevalência da utilização de terapêutica hipolipemiante; 4) avaliar o controlo do perfil lipídico nesses doentes. Os primeiros dois utentes adultos de cada dia de consulta foram convidados a participar, independentemente do motivo de consulta e da presença de fatores de risco CV. Foi utilizado um inquérito para recolha de dados sociodemográficos, clínicos e laboratoriais, incluindo o perfil lipídico avaliado nos 12 meses precedentes.
Resultados: Foram avaliados 16.856 indivíduos (61,6% do sexo feminino, 58 ± 15 anos), dispondo-se da determinação de CT, c-LDL, c-HDL e TG em 95,9% (N = 16.159), 59,1% (N = 9.956), 95,4% (N = 16.074) e 97,9% (N = 16.494), respetivamente. Detetou-se hipercolesterolemia (≥ 200 mg/dl) em 47% e níveis aumentados de C-LDL (≥ 130 mg/dl) em 38,4%. A hipertrigliceridemia (≥ 200 mg/dl) e o C-HDL diminuído (< 40 mg/dl) foram menos prevalentes, afetando cerca de 13% da população. A dislipidemia foi mais frequente nos homens entre os 30-60 anos e nas mulheres pós-menopausa. Considerando a população com idade ≥ 40 anos, 54,1% dos indivíduos cumpriam critérios de elegibilidade para terapêutica hipolipidemiante e 44,7% estavam medicados com estatinas (mas apenas 16,0% desses apresentavam CT ≤ 175 mg/dl).
Comentário: A prevalência de dislipidemia é elevada entre os utentes adultos dos cuidados de saúde primários em Portugal. É particularmente frequente nos homens entre os 30-60 anos e nas mulheres após a menopausa, que deverão constituir grupos-alvo nas estratégias preventivas de saúde pública. A documentação de uma prevalência de hipercolesterolemia tão elevada e da insuficiência do seu controlo justificam a necessidade de se implementarem medidas de estratégia populacional, em particular no âmbito de uma alimentação saudável, que complementem as medidas farmacológicas destinadas aos subgrupos populacionais de alto risco.
Por Joana L. Gonçalves, USF São Julião
