Um conto de Natal

Naquela noite fria de Dezembro, a cidade parecia respirar mais devagar. As luzes de Natal tremeluziam nas ruas molhadas pela chuva recente, e o cheiro a bolos proveniente da pastelaria, misturava-se com o fumo do assador de castanhas ali na rua.
Um homem de barbas brancas, compridas e desalinhadas, encolhia-se de frio junto a uma montra de um café. Lá dentro via-se o vapor que saía das chávenas, mãos quentes a envolver copos, rostos protegidos do frio. Do lado de fora, o vidro separava dois mundos.
Um médico, que acabara o turno e ainda trazia o cansaço nos ombros, reparou naquele olhar fixo e cansado do homem de barbas brancas. Hesitou por instantes, depois abriu a porta.
“Entre. Um chá quente ajuda sempre.”
O homem sorriu com gratidão e sentou-se. Ao fundo, ouviam-se músicas de Natal, baixinho mas persistentes, como se quisessem lembrar algo esquecido.
Conversaram. Primeiro sobre o frio, depois sobre a vida. Até que o homem das barbas brancas suspirou fundo.
“Sabes”, disse ele, “andam a chamar-me Pai Natal, mas sinto-me cada vez mais desanimado.”
O médico olhou-o com curiosidade.
“Ofereci ciência”, continuou o homem, “e muitos passaram a duvidar dela. Ofereci vacinas, e houve quem as temesse mais do que à doença. Ofereci medicamentos, e alguns abusaram deles, outros usaram-nos mal. E pelo caminho, houve quem visse apenas oportunidade de lucro.”
Fez-se silêncio. A chávena fumegava entre as mãos calejadas.
“E agora?”, perguntou o médico, em voz baixa.
O homem levantou os olhos claros, cansados mas atentos.
“Agora resta-me a última esperança. Os gestos pequenos e desinteressados. O cuidado genuíno. O amor que não se anuncia nem se vende.”
Olhou para o médico e sorriu.
“Como o teu. Todos os dias. Quando escutas um doente, quando explicas com paciência, quando tratas alguém como pessoa e não como número. É aí que o Natal ainda vive.”
Lá fora, a noite parecia menos fria. E dentro do café, entre duas chávenas de chá e uma canção antiga, o Natal aconteceu. Não em grandes milagres, mas em gestos simples, repetidos todos os dias, por quem cuida.
Como o teu, cara colega ou caro colega que lês este texto.
Um Santo e Feliz Natal para todos vós!
Como o teu. Todos os dias. Quando escutas um doente, quando explicas com paciência, quando tratas alguém como pessoa e não como número. É aí que o Natal ainda vive.
Por Carlos Martins
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