
É difícil precisar o início da crença em seres marinhos vingativos que seduzem através da música, canto e beleza feminina.
Sabemos que a mitologia oficial romana atribuía ao “tritão” uma origem divina (ainda que de segunda linha), pois era filho da deusa do mar Anfirite. E Homero refere-se claramente a estes seres misteriosos e ocultos na monumental Odisseia.
Actualmente as sereias povoam o nosso imaginário e, por exemplo, a animação na sétima arte recorre magistralmente a este universo.
Mas em que momento a crença passou a ficção?
Estou certo que vários contribuíram para o derrubar desta e de outras cortinas de fumo.
No entanto, tal como podemos ler no artigo de Abílio Martins, sj (revisitado pela revista Brotéria de Outubro de 2014), o contributo luso é factual.
A ele se refere já em 1565, em carta para Córdova, um residente em Goa.
Foi nessa geografia e época que Dimas Bosque, médico amigo de Garcia de Orta e do missionário jesuíta Pe Henrique Henriques, procedeu ao exame anatómico do “peixe-mulher”
Sabemos hoje que o animal observado era o mamífero marinho “dugongo”. O seu nome popular provém da palavra malaia duyung, que significa sereia. A espécie Dugong dugon habitou todas as regiões tropicais dos Oceanos Índico e Pacífico, mas actualmente a sua população está reduzida e ameaçada.
Nenhum resumo substitui a leitura na íntegra do relato sistemático da autópsia mas o que posso adiantar ao leitor é que, na minha opinião, a curiosidade, a análise racional e o registo escrito de Dimas Bosque é mais um exemplo do contributo português para a evolução da ciência no século XVI.
O último Prémio Pessoa, atribuído ao historiador Prof. Dr. Henrique Leitão, reforça a importância de revitalizarmos a divulgação da história da ciência portuguesa.
Por Luís Monteiro, Médico de Família, Co-Editor MGFamiliar
