
Pergunta clínica: Quanto tempo é necessário para um médico dos Cuidados de Saúde Primários implementar todas as recomendações e orientações clínicas na sua atividade clínica típica, que inclui o cuidado de pessoas com doença aguda, com doença crónica, e também a implementação de cuidados preventivos?
Desenho do estudo: Neste estudo de simulação por modelação teórica estimou-se o tempo necessário para implementar as orientações clínicas e recomendações na consulta de Cuidados de Saúde Primários, seja no cuidado de pessoas com doença aguda, com doença crónica, e também na implementação de cuidados preventivos. Foram atribuídos 2500 doentes a cada painel visto que cada médico de Cuidados de Saúde Primários nos EUA tem tipicamente 2300 a 2900 doentes. Foram criados 1000 painéis diferentes, sendo os doentes hipotéticos de cada painel representativos da população adulta dos EUA. Foram incluídas 48 recomendações de cuidados preventivos e 10 orientações clínicas para controlo das principais doenças crónicas dos EUA. O cálculo do tempo que demora a implementar cada medida indicada nas orientações clínicas e o número médio de consultas anuais por estes motivos foi baseado em estudos do mundo real. O tempo necessário para a prestação de cuidados agudos também se baseou em estudos do mundo real. Foi calculado o tempo médio necessário para um médico dos Cuidados de Saúde Primários cumprir as normas aplicáveis, incluindo o tempo necessário para registos e burocracias, trabalhando sozinho ou em equipa de saúde.
Resultados: A execução de todas as tarefas requer 26,7 horas por dia, das quais 14,1 horas são para prevenção, 7,2 horas para cuidados de doença crónica, 3,2 horas para registos e 2,2 horas para cuidados de doença aguda. A eliminação de 500 doentes do painel reduz o tempo necessário em 5,3 horas. Um médico que trabalhe em equipa de alto rendimento consegue realizar o trabalho em 9,3 horas.
Comentário: Este estudo mostra que a implementação de todas as orientações clínicas preconizadas é tarefa impossível na realidade norte-americana, uma realidade que tem algumas características diferentes da nossa como, por exemplo, o facto de ser um sistema de saúde à base de seguros, o que leva a elevado consumo de tempo em registos e burocracias. Contudo, é provável que se estudo for replicado noutros países, também aí se possa chegar às mesmas conclusões. O mesmo se aplica à realidade nacional. O trabalho em equipa reduz o número de horas necessárias para completar as tarefas de forma significativa devido principalmente aos aconselhamentos que passam a ser realizados por colegas não médicos. A combinação do trabalho em equipa com a redução da lista para 1500 doentes poderão tornar um dia de trabalho de 8 horas realidade, sem perda de qualidade.
Artigo original: J Gen Intern Med
Por Luís Bicheiro, USF Portas do Arade, Portimão
