Por Rita Fontes, USF São João do Porto
Pergunta Clínica: qual a relação entre o IMC no momento do diagnóstico da diabetes tipo 2 e a mortalidade?
Enquadramento: Alguns estudos recentes sugerem uma diminuição da mortalidade nos indivíduos com excesso de peso ou obesos comparativamente àqueles com peso normal. Esta descoberta foi apelidada de “Obesity Paradox”.
Desenho de estudo: Foi aplicado um questionário, bianualmente, a uma população de 11427 indivíduos, sendo 8970 pertencentes “Nurses Health Study” e 2457 ao “Health Professionals Follow up Study”. Os dados eram, por isso, atualizados de dois em dois anos. Nesses novos registos, aquele que, nessa altura, fosse portador de Diabetes Mellitus tipo 2, respondia a um novo questionário suplementar. Os critérios de inclusão foram os doentes diabéticos que, à data do seu diagnóstico, não fossem portadores de Doença Cardiovascular ou Doença Neoplásica. Foram excluídos aqueles com antecedentes pessoais de Diabetes Mellitus, os portadores de Doença Cardiovascular ou de Doenças Neoplásicas, indivíduos com IMC menor que 18.5 e aqueles que não apresentaram dados suficientes para o cálculo de IMC.
O peso foi medido imediatamente antes do diagnóstico de diabetes e utilizado para calcular o IMC, segundo a norma internacional. Foram consideradas estatisticamente a etnia, consumo de tabaco, álcool, atividade física, estado civil, qualidade da dieta, história familiar de DM e a presença de menopausa no caso das mulheres. As mortes eram reportadas pelos parentes mais próximos, por correio, ou procuradas no “National Death Index”.
Resultados: Foram registadas 3083 mortes num período de 15,8 anos de follow-up. Foi verificada uma associação de curva em J entre todas as categorias de IMC e todas as causas de mortalidade. A relação foi não linear para os que sempre fumaram. A relação foi linear para os pacientes que nunca fumaram.
Conclusão: Não se encontrou evidência de uma mortalidade mais baixa nos pacientes com DM2 que, ao diagnóstico, apresentavam excesso de peso ou obesidade, comparativamente com aqueles com peso normal.
Comentário: As investigações prévias que originaram o designado “obesity paradox” devem ser interpretadas com prudência. É necessário ter em conta as limitações desses trabalhos nomeadamente o tamanho reduzido das amostras e as características dos doentes seleccionados (hábitos tabágicos, quadro clínico e idade). De facto, a obesidade é um fator de risco de morte bem documentado. Os indivíduos obesos apresentam um aumento do risco quando comparamos com aqueles de peso normal. Esta percentagem aumenta substancialmente quando, à obesidade, está associado um aumento da gordura intra-abdominal. Em suma, a recomendação para os pacientes portadores de DM2 é alcançar, ou manter, um IMC dentro dos valores adequados (18,5 a 24,9 kg/m2).
