Pioglitazona e risco de cancro da bexiga

Por André P. Lourenço, USF Modivas


Pergunta Clínica: doentes medicados com pioglitazona têm risco aumentado de cancro da bexiga?

Desenho do Estudo: meta-análise de estudos controlados que mediram o risco de cancro de bexiga em doentes medicados com pioglitazona.

Resultados: foram considerados 6 estudos, envolvendo um total de 215 142 doentes medicados com pioglitazona, com um período médio de follow-up de 44 meses. O hazard ratio de desenvolver cancro da bexiga foi significativamente maior nos doentes medicados com pioglitazona, comparativamente aos grupos de controlo (hazard ratio 1.23; 95% IC 1.09-1.39; I(2) = 0%). O risco de viés foi moderado nos seis estudos. Considerando-se uma taxa de incidência de 20,8 por 100.000 pessoas, o número necessário para causar dano aos doentes (number needed to harm) é de 5 casos adicionais de cancro de bexiga por 100.000 pessoas.

Conclusão: os doentes tratados com pioglitazona têm um ligeiro aumento de risco de cancro da bexiga comparativamente à população em geral. A escolha da terapêutica deve ser uma decisão compartilhada com o doente, pesando os riscos e benefícios deste tratamento. Em doentes com diabetes tipo 2 e fatores de risco como história familiar, tabagismo ou exposição a determinadas formas de quimioterapia serão de considerar outros fármacos antidiabéticos. A pioglitazona deve também ser descontinuada em doentes diabéticos tipo 2 com cancro da bexiga recémdiagnosticado.

Comentário: De acordo com as atuais normas de orientação clínica da DGS para o tratamento da diabetes, a pioglitazona surge apenas como terapêutica de segunda linha em doentes com intolerância/contraindicação às sulfonilureias e marcada resistência à ação da insulina. A sua associação com o aumento do cancro da bexiga também já é considerada, particularmente em doentes tratados por períodos de tempo mais longos e com as maiores doses cumulativas (não sendo, no entanto, de excluir o risco após tratamentos de curto prazo). Juntamente com outros efeitos nefastos como o aumento da incidência de insuficiência cardíaca e do risco de fraturas, é uma opção terapêutica que requer alguma ponderação, em especial em doentes idosos, dado os riscos acrescidos associados à idade. De forma a otimizar a relação benefício-risco da pioglitazona, também é recomendado que, após o início da terapêutica com este fármaco, os doentes sejam reavaliados após 3 a 6 meses para aferir a resposta ao mesmo, nomeadamente na redução da hemoglobina glicosilada. Em doentes que não revelam uma resposta adequada, a pioglitazona deve ser descontinuada.

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