Sou atualmente Pediatra, mãe de três filhos, e dou primazia na minha profissão ao contato mais profundo com as pessoas, dentro das limitações que todos nós conhecemos. Sou apaixonada pela arte do ambulatório e pela arte da escrita. E saber viver é também uma arte.
Foi com muita honra que aceitei o convite do Dr. Carlos Martins para dar o meu contributo no portal de MGFamiliar.
Em jeito de introdução dos meus pensamentos, partilho convosco algumas ideias que transmiti na apresentação do meu primeiro livro:
A vida corre sem darmos conta, sem querer e sem saber somos adultos, enchemos os dias de escolhas, umas mais acertadas do que outras, e o destino o azar ou a sorte encarrega-se dos imprevistos; uns são bons e outros não.
Tudo isso nos marca indelevelmente, mais ou menos, conforme a nossa sensibilidade e as situações concretas.
Consoante a personalidade de cada um, os seres humanos apercebem-se ou não que as vivências acumuladas vão construindo o que são como pessoas; umas são visíveis ao ego, e outras permanecem guardadas em locais de acesso restrito, algumas mesmo de entrada proibida.
Com a maturidade, pode chegar a vontade de parar e fazer balanços.
Muitas vezes, essa capacidade de análise que a idade nos confere é insuficiente, precisamos de uma forte tempestade ou de uma queda desamparada para perceber a necessidade das pausas para compreender se é esse o caminho e apreciar as coisas em vez de seguir em excesso de velocidade pelas rotinas 24 sobre 24 horas, escutar o nosso interior e entender se somos felizes, melhorando então a qualidade de vida emocional.
É inegável que atravessamos um ciclo conturbado no país, um clima de pessimismo que nos contagia e gera um estado de pânico coletivo. Mais grave do que isso na minha opinião é o ritmo frenético com que somos bombardeados com informações, e o excessivo materialismo e consumismo que nos cria necessidades ilusórias na civilização ocidental em que nos inserimos, frustrando-nos por não conseguimos obter tudo o que julgamos querer. Sem darmos conta ficamos enredados nessa teia, aglutinados nesse estilo de vida, o que facilita a rotura psicológica e a entrada no pesadelo da tristeza infinita.
Quando me apercebi que a trovoada era forte, a chuva de pingas grossas me encharcava, e escorreguei no chão molhado, refugiei-me na escrita. Não consegui parar, foram dias e noites seguidas, nos tempos livres, mais noites que dias, uma vontade irreprimível de me entender, baseando-me não só no que vivi e no que vi, mas também inspirada numa criatividade ininterrupta de geração espontânea. Quando dei conta tinha escrito o Microcosmos Humano, em cerca de dois meses.
O meu livro retrata uma figura feminina, mas é uma personagem universal e qualquer um dos leitores do livro se pode identificar com ela, quando se decidir a ter tempo para si próprio, para refletir no sentido dos anos que viveu e no rumo que quer dar aos capítulos que ainda quer viver, dentro das limitadas possibilidades do seu livre arbítrio…
Surgiu em mim a Lídia, uma mulher forte, que se julgava inquebrável. Um dia, resolveu aceitar a sua vulnerabilidade e sentou-se no divã, numa espécie de introspeção.
Reconheceu as feridas escondidas, de algumas grandes ou de muitas pequenas coisas más. Era o passo mais importante para se conseguir levantar e se abrigar da tempestade. Estava num estado permanente de alerta e vivia sem viver, olhos e ouvidos que apenas eram utilizados sensorialmente, circuito pelos dias em piloto automático.
Aos poucos, a Lídia permitiu a si mesma uma fluência psíquica, analisou os motivos.
A profissão de Pediatra seria um deles, curiosamente, apesar de a abraçar com carinho e adorar tratar e cuidar das crianças, mas sua excessiva sensibilidade, em parte intrínseca ao seu caráter, em parte por ter 3 filhos, e o cansaço acumulado, levava a que as imagens de sofrimento infantil extremo e em situações limite se colassem na retina, fazendo-a também sofrer.
Esse era um dos motivos, mas havia outros, da sua intimidade lunar, que não importava expor mas importava sim assimilar.
E enquanto aceitava essas vulnerabilidades, estas iam perdendo força e ela fortalecia-se.
E os olhos começaram a ver, os ouvidos a escutar, numa espécie de epifania que era aquela viagem no divã. Percebeu que a vida valia a pena ser vivida, e não apenas percorrida.
Que apesar de a felicidade extrema ser impossível dada a natureza humana não tolerar o excesso de descarga de neurotransmissores, os altos e baixos faziam a vida saber melhor, e a felicidade dependia, não só das óbvias grandes coisas boas, mas da reserva das pequenas coisas boas que importava descobrir. E que estavam espalhadas por todo o lado.
E o seu espírito abriu-se para o exterior, para além do seu microcosmos familiar, das alegrias que lhe davam os seus filhos, e viu as pessoas que a rodeavam, entendendo que entre as pessoas muito boas e muito más, que eram as exceções, existiam as pessoas simples, como ela própria, e que partilhando com elas experiências e pequenos gestos, estes se transformariam em ondas de energia positiva, gerando uma sucessiva queda de peças de dominó interminável, a solidariedade entre seres humanos, nos seus microcosmos.
Era isso a essência do humanismo. Uma utopia, talvez, mas a vida era feita de sonhos, e não apenas de rotinas.
A felicidade era um estado de plenitude interior em harmonia com a vida.
E era fundamental reconhecer os sinais de alerta para a possibilidade da queda livre na tristeza infinita, mantendo acesa a força de vontade e o instinto de sobrevivência mental, numa permanente e contínua atenção às pequenas coisas boas.
É consensual a certeza que um dia todos vamos partir.
Aceitar a extrema fragilidade da nossa natureza, aprendendo a viver e a lidar também com essa certeza, e olhar os outros e a nós próprios como seres humanos que somos, só nos pode levar a aproveitar o momento presente, sempre, e a acreditar que vale a pena ter esperança em tentarmos construir uma vida melhor para nós e para os outros.
Vânia Mesquita Machado

