Por Mariana Rio, USF São João do Porto
Introdução: O refluxo gastroesofágico (passagem de conteúdo gástrico para o esófago) ocorre em 1/3 das crianças saudáveis e é motivo de consulta em 1/4 das consultas aos 6 meses de vida. É um processo normal, podendo ocorrer várias vezes por dia.
Sintomas: Os sintomas mais frequentes são a regurgitação e o bolsar. Difere da doença do refluxo gastroesofágico pela existência de vómito associado a irritabilidade, recusa alimentar, má evolução ponderal e disfagia, assim como sintomas extra-esofágicos (pieira, tosse recorrente, odinofagia, rouquidão). Nas crianças de 1 a 5 anos de idade, manifesta-se por regurgitação, vómito, dor abdominal e recusa alimentar. Nestes, pode ser criado um processo de “aversão” à comida que, associado às perdas nutricionais resultantes do vómito, poderá levar a estados de má evolução estaturo-ponderal e mal nutrição. Crianças mais velhas terão sintomatologia mais semelhante à dos adultos.
Exames auxiliares de diagnóstico (EAD) : De uma forma geral, não são necessários EAD para obter um diagnóstico. Porém, temos à nossa disposição as radiografias seriadas do trato gastrointestinal (útil apenas na suspeita de alterações anatómicas do esófago como causa de vómitos), manometria esofágica (a sua utilidade tem sido muito contestada), a monitorização da impedância intraluminal (o seu uso como complemento da manometria é cada vez mais recomendado) e a endoscopia digestiva alta.
Terapêutica: As alterações do estilo de vida são a primeira opção terapêutica. Nos lactentes, evitar dar as mamadas com o lactente sentado ou em decúbito, diminuir o volume das mamadas, aumentar a sua frequência, exclusão de leite de vaca e ovos da dieta materna durante 2 a 4 semanas (em doente com amamentação exclusiva) ou a utilização de fórmulas com proteínas hidrolizadas ou à base de aminoácidos , evitar ambientes com fumo de tabaco. É necessário ter em atenção o risco de enterocolite necrotizante em lactentes com parto pré-termo. Às crianças e adolescente recomenda-se diminuição do peso, cessação tabágica, evitar o consumo de álcool, cafeína, chocolate, alimentos picantes e cuidados posicionais.
Os antiácidos têm sido vistos como inócuos, porém, há vários estudos que relatam casos de intoxicação por preparações com alumínio ou cálcio. Actualmente, não está recomendado o uso crónico de antiácidos como tratamento da DRGE na pediatria. Os antagonistas dos receptores de histamina (cimetidina) são eficazes no tratamento da esofagite erosiva mas com risco de taquifilaxia ao fim de 6 semanas. Os inibidores da bomba de protões demonstram taxas maiores e mais rápidas de cura da esofagite erosiva e o seu efeito não diminui com o uso crónico. A sua toma deve ser feita 30 minutos antes das refeições e têm um tempo de semi-vida mais curto que nos adultos. A utilização destas classes farmacológicas pode estar associada a pneumonia adquirida na comunidade, candidemia e colite necrotizante nos lactentes.
Conclusão: Em suma, o refluxo gastroesofágico é muito comum em crianças saudáveis. Apenas deverá levantar preocupação quando ocorrer sintomatologia compatível com DRGE, altura em que as crianças deverão ser referenciadas para uma consulta de Gastroenterologia Pediátrica.
