Volume ou resolutividade? Uma medição assistencial complexa

 

 

Vinha eu a ouvir há dias um podcast de colegas médicos de família britânicos quando, a propósito das mudanças introduzidas no seu dia-a-dia de exercício da profissão durante o emergir da pandemia de covid-19, aqueles referiram que – mesmo consultando menos doentes presencialmente e realizando aproximadamente o mesmo número de contactos que durante o período pré-pandemia – percecionavam um maior desgaste e sobrecarga assistencial.
Se no passado, mesmo sem haver as ferramentas tecnológicas atuais facilitadoras de acesso dos utentes ao seu médico, havia tempo para fazer o mesmo número de contactos com um ritmo mais baixo e com possibilidade de uma maior troca de impressões (clínicas e não só) entre colegas (dizem que ajuda à prevenção quinquenária e ao estado de humor), o que mudou?
Inegavelmente que alguns fatores motivadores dessa mudança dizem respeito à crescente sobrecarga burocrática e as inconsistências informáticas e tecnológicas (não raras vezes reportadas junto das hierarquias e da população). Mas também é sabido que ser utente/doente em 2020 é diferente do que era há uma dúzia de anos: há mais inovação em saúde (e por conseguinte melhores diagnósticos) e maior esperança média de vida, mas também mais desafios sociais e mais doentes crónicos vivendo mais tempo, por sua vez com multimorbilidade e grau crescente de limitações na sua autonomia.
As contingências introduzidas pela pandemia provoca(ra)m impactos relevantes nestes doentes crónicos e complexos. Seguramente tiveram menos consultas presenciais nos cuidados de saúde primários e hospitalares durante este meio ano que levamos de pandemia. Tal não invalida que tenham estabelecido contactos com os seus médicos por via não presencial, quiçá em número superior ao total habitual de consultas em igual período. Mais contactos significaram mais acessibilidade e ganhos em saúde? O tempo dirá.

Com aquela escuta e reflexão, ocorreram-me questões de política, de políticas de saúde e de questões estruturais da prestação e organização de cuidados de saúde:
1. Com mais contactos não presenciais, os governos centrais arriscarão a dizer que “foi recuperada a totalidade de consultas perdidas durante o período de confinamento”, quiçá para ficarem bem na fotografia, mesmo sabendo-se que contactos sem presença não são o mesmo que uma consulta presencial? Com que custos em saúde e para a sociedade?
2. Os doentes complexos requerem mais cuidados e com maior regularidade. Com maior prevalência daqueles, multiplica-se a carga assistencial, para lá daquilo que as “unidades ponderadas” (desde sempre associadas apenas à idade) prevêem, gerando ainda mais dificuldade de acesso, sobrecarga assistencial e desgaste dos médicos e serviços de saúde. Numa altura de reorganização dos serviços de saúde, da revolução digital e de eleições que se avizinham para a direção da associação nacional representativa dos médicos de família, talvez fosse altura de recordar e repensar sobre o papel que se espera do médico de família (superiormente desacreditado pelas hierarquias na comunicação social nos últimos tempos) e sobre a adequação das listas de utentes dos médicos de família (há vários anos falada mas ainda não implementada), não apenas na sua dimensão mas sobretudo na sua complexidade.

Por André F. Correia, médico de família @LinkedIn

(1) eGPlearning (canal de youtube e podcast), “Digital primary care update 12.9.20”
(2) Santos J.A., “Prevenção quinquenária: prevenir o dano para o paciente, actuando no médico” (editorial), Rev Port Med Geral Fam 2014;30:152-4
(3) https://ordemdosmedicos.pt/bastonario-condena-sucessivas-falhas-nos-sistemas-informaticos-do-sns/
(4) Broeiro P., “Multimorbilidade e comorbilidade: duas perspectivas da mesma realidade”, Rev Port Med Geral Fam 2015;31:158-60
(5) http://www.acss.min-saude.pt/2018/03/28/acss-organiza-o-forum-mgf-redimensionamento-das-listas-de-utentes/

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