Por Helena Cabral, Médica Interna, USF Garcia de Orta
Pergunta clínica: Dever-se-á usar aspirina para prevenir eventos cardiovasculares em indivíduos sem doença cardiovascular?
Comentário: Foi publicada uma meta-análise no American Heart Journal que vem atualizar a informação existente, após inclusão de 3 novos estudos. Volta-se então a analisar o uso de aspirina (variando de 100 mg em dias alternados até 500 mg por dia) na prevenção primária cardiovascular, em estudos com uma proporção significativa de mulheres e em dois deles apenas doentes diabéticos. Não é dada informação quanto ao modo como os estudos foram selecionados ou a sua qualidade ou como os dados foram obtidos.
Não se encontraram diferenças de outcome entre os grupos estudados, exceto para enfarte de miocárdio. Em 3,86% dos indivíduos tratados com aspirina foram detetados eventos cardiovasculares major vs 4,16% dos tratados com placebo (RR = 0.9; IC 0,85-0,96), o que significa que se tiveram de tratar 253 indivíduos durante quase 7 anos para prevenir 1 evento. Analisando os outcomes de forma individual – enfarte de miocárdio, acidente vascular cerebral ou morte – não se observou redução significativa.
Por outro lado, houve risco maior de hemorragia nos indivíduos tratados com aspirina, resultado num número necessário para lesar de 261 (182-476).
Os resultados não parecem estar relacionados com o risco basal ou género dos indivíduos.
Apesar de estar já estabelecido o papel da aspirina na prevenção secundária, na prevenção primária sempre houve bastante controvérsia e este estudo vem agora tentar esclarecer algumas dúvidas. Será razoável o número necessário para tratar encontrado? Deverão indivíduos saudáveis continuar a tomar aspirina, vendo aumentado o seu risco hemorrágico?
Conclusão: O uso de aspirina na prevenção primária cardiovascular não parece ser aconselhado. Esta meta-análise mostrou que é preciso tratar 254 indivíduos sem doença cardiovascular com aspirina durante 7 anos para evitar 1 evento cardiovascular, com a ocorrência de 1 hemorragia major adicional no mesmo grupo. (Nível de evidência 1a)
Artigo original: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21742097?dopt=Abstract
