Uma aspirina por dia mantém o cancro longe?

 Por Vítor Cardoso, USF Gualtar

 

Pergunta clínica: O ácido acetilsalicílico diminui o risco de morrer por cancro?

 

Desenho: Revisão baseada na evidência, realizada pelos colaboradores do Alberta College of Family Physicians.

 

Resultados: Foi encontrada uma meta-análise de 2011, que incluiu 8 ensaios clínicos aleatorizados e controlados (ECAC), num total de mais de 25.000 indivíduos. A intervenção era a toma diária de 100 mg de ácido acetilsalicílico (AAS) para prevenção cardiovascular primária ou secundária, analisando-se os dados para perceber os efeitos na mortalidade por cancro. Três ECAC forneceram dados de até 20 anos de seguimento. Foi encontrada uma redução estatisticamente significativa na mortalidade por cancro no grupo medicado com AAS (2,4% vs 3,0%), calculando-se um Número Necessário para Tratar de 167 ao longo de 4-9 anos. Os efeitos foram maiores na prevenção do cancro gastrointestinal, nos indivíduos mais velhos e quando a duração do uso de aas era maior que 5 anos. No seguimento a longo-prazo, estimou-se uma redução de 22% do risco relativo de morte por cancro, sem alterações na mortalidade por todas as causas. Duas outras meta-análises (2012), realizadas pelo mesmo autor encontraram resultados semelhantes, demonstrando adicionalmente uma diminuição nas metástases com o AAS.

 

Comentário: Quantos mais efeitos da aspirina® se descobrirão desde o início da sua utilização? E, acima de tudo, serão eles seguros? As meta-análises sugerem que o AAS poderá diminuir o risco de se morrer por cancro. Porém, estes estudos podem estar enviesados e o efeito global parece ser pequeno. São reportadas algumas limitações à meta-análise descrita: a análise múltipla terá sido realizada sem corrigir os valores de p, sendo provável que alguns resultados sejam devido ao acaso. Um dos ECAC que suportava o efeito benéfico do AAS no cancro foi incluído apesar de os seus dados terem sido destruídos. Por outro lado, foram excluídos 2 ECAC (aproximadamente 62.000 indivíduos) que através da administração de AAS em dias alternados, não demonstraram existir benefício do AAS na mortalidade por cancro colo-rectal, por todos os cancros ou por todas as causas. Mesmo que exista um benefício verdadeiro, é provável que esse efeito seja obscurecido pelos danos causados (aumento de sangramento gastrointestinal e intracraniano). Atualmente, o AAS não está recomendado para a prevenção de cancro (USPSTF).

 

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