Ecocardiograma de rastreio: justifica-se?

 

Pergunta clínica: Será que o rastreio da cardiopatia estrutural pelo ecocardiograma se traduz numa diminuição da mortalidade, do risco de enfarte agudo do miocárdio ou do risco de AVC?

Enquadramento: A identificação de cardiopatia estrutural em indivíduos assintomáticos poderia permitir um início precoce de tratamento modificador da doença. O ecocardiograma é frequentemente utilizado na avaliação de indivíduos de baixo risco e, nos últimos tempos, tem sido alvo de interesse crescente devido à mediatização de casos de morte súbita entre adultos jovens e atletas. Devido à baixa prevalência da cardiopatia estrutural na população em geral, a realização do ecocardiograma em indivíduos de baixo risco não é considerada justificável, apesar de estar indicada no rastreio de indivíduos assintomáticos com história familiar de morte súbita ou de doenças hereditárias com atingimento do coração ou grandes vasos.

Desenho do estudo: O presente estudo procurou avaliar se o rastreio da cardiopatia estrutural com recurso ao ecocardiograma, na população em geral, melhora a sobrevida a longo prazo ou reduz o risco de ocorrência de doença cardiovascular. Para isso, em 1994 e 1995, os investigadores recrutaram 6861 adultos (média de idades de 60 anos), do estudo de base populacional de Tromso, Noruega. Os participantes foram alocados de forma aleatória e cega a dois grupos: rastreio único de cardiopatia através de ecocardiograma bidimensional ou não-rastreio. Posteriormente, foram analisadas as taxas de mortalidade e de incidência de EAM e AVC, fatal e não-fatal.

Resultados: Foram incluídos 6861 adultos, com média de idades de 60 anos, distribuídos da seguinte forma pelos dois grupos: 3272 indivíduos no grupo de rastreio e 3589 indivíduos no grupo de controlo (não rastreio). O grupo de rastreio e o grupo de controlo eram inteiramente compostos por indivíduos caucasianos e apresentavam igual distribuição por sexos. Aproximadamente 12% dos indivíduos auto-reportaram doença coronária, 59% tinham HTA (mas apenas 13,5% estavam medicados), 32% eram fumadores e apenas 4% tinham DM. O rastreio identificou doença cardíaca ou valvular em 7,6% dos indivíduos, que posteriormente iniciaram tratamento. Após um follow-up de 15 anos, 26,9% (n=880) dos indivíduos do grupo rastreado morreram, comparativamente com 27,6% (n=989) do grupo de controlo. Não se observou diferença entre os grupos para os seguintes outcomes: taxa de morte súbita, taxa de mortalidade por doença cardíaca ou taxa de incidência de EAM ou AVC fatais ou não-fatais.

Conclusão: O rastreio de base populacional da cardiopatia ou da valvulopatia através do ecocardiograma poderá permitir identificar patologia cardíaca. No entanto, não existe diminuição da mortalidade, do risco de enfarte agudo do miocárdio ou do risco de AVC.

Comentário: O diagnóstico de doença assintomática só é útil se for possível tomar atitudes para atrasar ou evitar a progressão da doença. Apesar da esclerose aórtica e mitral estarem associadas a um risco substancialmente aumentado de doença cardiovascular, o diagnóstico precoce de valvulopatia na população em geral não se traduz numa diminuição do risco de morte por eventos cardiovasculares. A importância deste estudo relaciona-se com a evidência científica que ele adiciona a uma questão que, até aqui, era fundamentada em opiniões de peritos. Apesar destes resultados não suportarem a realização de rastreio por ecocardiograma, eles representam um importante contributo clínico, visto que poderão contribuir para uma redução da excessiva utilização do ecocardiograma. O número de ecocardiogramas realizados vem aumentando anualmente, sendo que os estudos de padrões de prescrição revelam que o ecocardiograma é frequentemente utilizado na avaliação de indivíduos assintomáticos e de baixo risco. Apesar do ecocardiograma ser um exame não-invasivo e de não envolver radiação, a sua realização não é isenta de riscos. A realização de estudos cardíacos adicionais subsequentes a achados incidentais no ecocardiograma poderá ser fonte de ansiedade e de outras perturbações psicológicas e resultar em complicações inesperadas, sem quaisquer benefícios clínicos.

Artigo original

Por Ana Mafalda Macedo, UCSP Carvalhido 

 

 

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