Você tem uma Fibrilhação? Tenho sim, Senhor Doutor…. mas já está casada!

 

 

Num domingo quente, mas cinzento, a fazer consulta de Atendimento Complementar, entra no gabinete a D. Maria (nome fictício), 84 anos enrugados pela enxada e queimados pelo sol, com quadro de síndrome gripal com alguns dias de evolução. Não está inscrita na UCSP, vive para os lados da serra, mas veio passar o domingo com a filha. Faço a habitual história clínica rápida, pois os Utentes não param de assomar na sala de espera, e chego à parte da medicação. Reparo que a Doente está medicada com varfarina e achei estranho, uma vez que não me referiu patologia justificativa da sua toma nos antecedentes.

Pergunto: D. Maria porque é que toma este medicamento?
Responde: Olhe Doutor, não sei bem! Fui uma vez à Urgência e disseram me para tomar isto para o resto da vida.
Pergunto: Então como está o INR?
Responde: O quê?
Pergunto: O INR, a “análise que vê se o sangue está fino ou grosso”?
Responde: Não sei nada disso. Como lhe disse há 10 anos que tomo a pastilha todos os dias e não faço análise nenhuma.
Pergunto: Mas a Sra. tem alguma arritmia… uma fibrilhação?
A D. Maria, espantada, encosta-se na cadeira e responde: Tenho sim, Senhor Doutor…… mas já está casada!

Um pouco confuso com a resposta, totalmente fora de contexto, consulto o processo clínico e verifico que a Dona Maria não tem uma fibrilhação, mas tem sim uma filha chamada Maria da Conceição, a sua “filha São”, e que prontamente esclareceu já ter celebrado o amor sob a forma de casamento, não fosse eu ter segundas intenções com a minha pergunta tão “atrevida”.

Este episódio, que embora verídico, poderia perfeitamente dar um bom “sketch” humorístico, fez-me reflectir sobre duas questões fundamentais. A primeira está relacionada com a comunicação Médico-Doente, que deveria ser insistentemente abordada e treinada nas cadeiras das Faculdades de Medicina, em todas as disciplinas, como forma de expansão e melhoria das aptidões comunicacionais, mas que, na maior parte das vezes, é trocada pela fisiopatologia de um qualquer síndrome raríssimo que atinge 6 pessoas a nível mundial e que tem particular incidência no cume de uma montanha da Antártida (síndrome inventado para ilustrar a ausência de importância que é dada à comunicação). O Médico deve ser um camaleão no que toca à arte de comunicar. Transforma-se e adapta-se consoante o Doente que tem à sua frente, as suas crenças, a sua religião, o seu estado civil, a sua escolaridade, a sua naturalidade, a sua profissão, as suas perdas, as suas conquistas…. Frequentemente o Doente aprecia o Médico que demonstra interesse pela doença, que procura soluções dentro dos recursos existentes e que as apresenta de forma sincera, procurando a tão ansiada aliança terapêutica. Às vezes não é fácil. Umas vezes a falha é do Médico, que não tem treino para entender o Doente quando as chamadas “interferências” bloqueiam a linha orientadora da comunicação. As constantes interrupções – o bater à porta do gabinete, o tocar do telefone, a informática lenta e complicada, a dificuldade em garantir a privacidade num meio pequeno onde toda e gente se conhece – podem ser condicionantes espácio/temporais desta comunicação que se quer muitas vezes isolada, fechada ao exterior, qual confissão de pecados ao diácono em época pascal. Outras vezes, assistimos aos obstáculos que o Doente coloca em ser entendido, quando o motivo da consulta é apenas a exposição da catarse, um purgar de ideias e queixas que impedem a compreensão. Parece, que quando estamos quase a “chegar lá” o Doente salta para outro assunto, como quem salta de pedra em pedra para não se deixar apanhar.

Como em tudo, também na comunicação Médico-Doente deve imperar o bom senso, e a MGF, através da acessibilidade e continuidade de cuidados, permite mais facilmente esclarecer mal entendidos, procurar o verdadeiro motivo de consulta, demonstrar essa sinceridade de conhecimentos capaz de fidelizar o Utente/Doente e construir essa confiança terapêutica entre Médico-Doente.

A segunda questão põe em evidência a instituição de medicação, ventiloterapia, pedido de EADs, realizadas a nível hospitalar, e mais especificamente nos Serviços de Urgência onde é, por vezes, feita uma abordagem mais rápida para a solução imediata do problema não sendo dada, ao Doente ou à família, uma explicação sobre as razões das medidas tomadas levando a situações em que os Doentes fazem determinada medicação ou medida terapêutica ad aeternum sem um posterior seguimento. A responsabilidade pode ser atribuída à falta de capacidade do Hospital em assegurar uma consulta de reavaliação, ao Doente que não trouxe informação clínica, ao sistema informático que não permite consulta de registos, ao Médico de Família que renova tacitamente a medicação sem questionar porquê ou para quê?, ao medo que muitas vezes temos em suspender um anticoagulante ou um antiagregante, apesar de sabermos que não há indicação, mas com receio de o Doente ter um evento cardiovascular no dia seguinte e de nos ser imputada a responsabilidade, à falta de Médicos de Família…. Enfim, …não tenho dúvidas de que esta relação entre os dois níveis de cuidados de saúde continua a precisar de afinações de parte a parte.

Reflexões à parte, a pergunta que afinal se coloca “não poderia ser outra”:

Mas afinal qual era o INR da Dona Maria?

Pasmem-se, porque ao fim de 10 anos a fazer varfarina sem controlo de INR, a D. Maria tinha, nada mais, nada menos, que um INR de 2.5!

Por Bruno Moreno

 

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