Guidelines em discussão …primeira volta!

Confesso ser daqueles que pensam que a disponibilização de conhecimentos médicos a todos pode ajudar a uma prática mais consequente… Mas também tenho a noção de que tal disponibilização se mal feita, ou bem orientada, pode ser de alguma forma perversa.

A discussão deve iniciar-se pela denominação e pelo sentido que se quer dar a um texto que pretende informar os médicos do que é, dentre a prática publicada, a aplicação mais exata do conhecimento médico quer em diagnóstico, quer em terapêutica.

Se forem “linhas de orientação” têm um peso, de mera indicação sobre o que os investigadores – quer de estudos de eficácia, quer de revisores – descobriram. Mas têm a questão de, em caso de problema com um caso, o médico ter de explicar porque não esteve dentro da “linha” e assim arcar com as consequências.

Se forem “normas de orientação” então o significado, ao menos legal português, é que a prática tem de se conformar por elas e que a qualquer altura um conjunto de avaliadores, poderá entrar por um local de prestação de cuidados médicos e sancionar o seu não cumprimento escrupuloso.

Em qualquer dos casos o que era suposto ser interessante, por permitir aos médicos ter acesso a um conjunto de conhecimentos amalgamado, coerente e condensado, passou a ter  uma conotação não de qualidade e de ciência, mas de imposição e de cumprimento cego.

Vem tudo isto a propósito de Clinical guidelines at stake escrito por Antonio Sitges-Serra, de que hoje aqui inicio a leitura e reflexão prática.

Em tal texto da autoria de um Professor Espanhol Catedrático de Cirurgia em Barcelona, o autor começa por dizer: “Medicine is not a science: it is a cultural Product.E mais adiante refere “However, because medicine, in opposition to science, requires bedside decision making, it cannot rely only on hard data.” Ou seja que a forma como uma sociedade vê, interpreta e valoriza os problemas que alguém identifica, outrem amplifica e de que alguns rapidamente se apropriam para algum tipo de ganho, são o caldo de cultura que leva as sociedades a querer “ter saúde”. E que mesmo que o conjunto axiomático de sinais e sintomas corresponda à mesma entidade, a sua apresentação pode não ser a mesma e a forma como é interpretada, até na sua evolução cronológica pode não ser diferente. E depois há a questão de que a valorização dos sintomas pode ser diferente pelo consulente e de que mesmo que seja pensada uma entidade nem sempre os resultados dos testes que se pedem pode ser consequente: os falsos positivos e os falsos negativos…

Mas voltaremos ao tema.

Luiz Miguel Santiago

MD, Médico de Família na USF Topázio

PhD, FCS da Universidade da Beira Interior

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